O verdadeiro prejuízo foi científico

O verdadeiro prejuízo foi científico

Por Ana Carolina Martins

O desvio de R$ 4,2 milhões em verbas de pesquisa ocorrido no Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e revelado pela Justiça, com a condenação da ex-servidora Ligiane Marinho de Ávila, é algo grave sob qualquer perspectiva.

Todavia, reduzir esse inimaginável episódio a uma simples perda financeira desviada, significa compreender apenas uma parte do prejuízo, a menor parte. O verdadeiro baque ocorreu no âmbito de conhecimento científico. Recursos destinados à pesquisa não podem ser comparados com o dinheiro comum de orçamentos administrativos. Eles financiam recursos incomensuráveis como tempo, conhecimento e experimentos, que comumente levam anos para produzir resultados.

Ao serem interrompidos abruptamente, perde-se a continuidade científica, dados acumulados, oportunidades de descoberta e, por vezes, avanços que poderiam beneficiar diretamente a sociedade, quiçá o planeta. A sentença da Justiça foi clara ao apontar que os desvios resultaram em bloqueios de projetos, atrasos em cronogramas e paralisação de estudos com relevância social e sanitária. Em áreas, como a biologia e a saúde pública, essas pesquisas, frequentemente, investigam doenças, tratamentos, biodiversidade e impactos ambientais. Cada experimento suspenso representa perguntas que deixam de ser respondidas e soluções que não chegam à população. Há ainda um dano menos visível, mas igualmente profundo: o abalo na comunidade científica. Pesquisadores que dedicaram anos de trabalho se depararam com o congelamento dos seus projetos congelados, tiveram de prestar contas por valores que não desviaram e enfrentaram desgaste emocional e profissional. A ciência, que depende de confiança institucional e estabilidade, torna-se refém da insegurança administrativa. O episódio expõe também a vulnerabilidade de estruturas de gestão financeira em projetos acadêmicos, que, muitas vezes, operam com alto volume de recursos e dependem da confiança entre as equipes, o que requer responsabilização exemplar, assim como o fortalecimento de mecanismos mecanismos de controle e transparência capazes de proteger pesquisadores e instituições.

A Unicamp é uma das principais produtoras de conhecimento do país, e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) sustenta parte significativa da ciência brasileira.

Quando recursos destinados à pesquisa são desviados, o impacto ultrapassa os muros de um laboratório ou de uma universidade: ele atinge o próprio desenvolvimento científico do país. Recuperar o dinheiro é necessário. Punir os responsáveis, também. Mas nada disso vai devolver o tempo perdido na ciência, nem no tempo nem nos avanços na pesquisa. Trata-se de um incalculável patrimônio que não pode ser recomposto tão facilmente.