Oriente Médio, um histórico barril de pólvora
Ao longo do último século, o Oriente Médio tem sido retratado, de forma simplista, como uma região condenada à fragmentação política. No entanto, a falta de unidade não é fruto de um destino inevitável, mas de processos históricos concretos, muitos deles impostos de fora para dentro.
O colapso do Império Otomano ao fim da Primeira Guerra Mundial desestruturou uma ordem política que, com todas as suas limitações, mantinha relativa integração administrativa sobre vastos territórios. Em seu lugar, potências europeias traçaram fronteiras artificiais, desconsiderando identidades étnicas, religiosas e tribais. O acordo Acordo Sykes-Picot simboliza essa partilha, que redesenhou o mapa regional segundo interesses coloniais britânicos e franceses, não segundo consensos locais.
A criação do Estado de Israel em 1948 aprofundou divisões e inaugurou um ciclo de guerras e rivalidades que ultrapassa o conflito israelo-palestino. O nacionalismo árabe, que encontrou expressão em lideranças como Gamal Abdel Nasser, tentou oferecer um projeto unificador, mas esbarrou tanto em disputas internas quanto em interferências externas durante a Guerra Fria. A região tornou-se palco de disputas entre Estados Unidos e União Soviética, consolidando regimes autoritários apoiados por interesses estratégicos.
Além disso, a instrumentalização de diferentes grupos étnicos-religiosos, especialmente entre sunitas e xiitas, foi intensificada por rivalidades interestatais, como a disputa entre Arábia Saudita e Irã. Essas tensões não são ancestrais e imutáveis; foram politizadas e amplificadas em contextos de competição por poder e influência.
A Primavera Árabe, iniciada em 2011, revelou tanto o desejo popular por reformas quanto a fragilidade institucional herdada de décadas de autoritarismo. Em vez de promover integração regional, muitos levantes resultaram em guerras civis e maior fragmentação, expondo a ausência de mecanismos sólidos de cooperação política.
Portanto, a falta de unidade política no Oriente Médio não pode ser explicada apenas por diferenças culturais ou religiosas. Ela é resultado de fronteiras impostas, intervenções externas, rivalidades geopolíticas e projetos nacionais inconclusos. Reconhecer essa trajetória histórica é fundamental para superar análises superficiais e compreender que a fragmentação atual é menos uma fatalidade e mais uma construção histórica que, como tal, pode ser transformada.
