As águas que não se vão em março
São as águas de março fechando o verão." A canção de Tom Jobim eternizou a ideia de ciclo, de passagem e renovação. Mas ainda estamos em fevereiro, e tudo indica que, neste ano, as águas de março não encerrarão coisa alguma. A previsão meteorológica para o início de 2026 aponta a persistência de características típicas do verão, como calor intenso e chuvas frequentes, com alto potencial de instabilidade até o começo de abril, especialmente nas regiões Sudeste e Sul. O que deveria marcar o fim da estação pode, desta vez, prolongar o período de alerta.
No litoral paulista, o cenário já é conhecido e dolorosamente repetido. Casas soterradas, ruas alagadas, famílias desalojadas e cidades em estado de emergência voltam a ocupar o noticiário. Desde dezembro, São Paulo já registra 19 mortes relacionadas às chuvas. São vidas interrompidas por deslizamentos, enxurradas, quedas de árvores e desabamentos. Números que deixam de causar surpresa e passam a compor uma estatística recorrente do verão paulista.
É inegável que os eventos climáticos extremos se tornaram mais frequentes e intensos. O aumento do volume de chuva concentrado em poucas horas, associado às mudanças climáticas globais e ao aquecimento dos oceanos, produz tempestades mais severas e acumulados acima da média histórica. O solo rapidamente se satura, encostas cedem e rios transbordam.
Mas o problema não é apenas climático. A infraestrutura urbana, especialmente nas áreas mais vulneráveis, não acompanha essa nova realidade. Ocupações em encostas, drenagem insuficiente, déficit habitacional e planejamento urbano falho ampliam o impacto de cada temporal. A cada verão, repete-se o roteiro: mobilização emergencial, decretos de calamidade e promessas de reconstrução.
A prevenção, porém, exige mais do que reação. Exige investimento contínuo em obras de contenção e macrodrenagem, políticas habitacionais efetivas, reassentamento de famílias em áreas de risco e coordenação entre Estado e municípios. Exige planejamento que considere que o padrão das chuvas mudou, e continuará mudando.
Também exige transparência na aplicação de recursos, atualização constante dos planos de defesa civil e uso inteligente de tecnologia para monitoramento e emissão de alertas. Sistemas de previsão mais precisos salvam vidas, mas apenas quando acompanhados de protocolos claros e respostas rápidas. Não basta avisar: é preciso ter para onde evacuar, como acolher e de que forma reconstruir.
Se na poesia as águas de março simbolizam esperança, na realidade elas têm representado repetição. E, ao ameaçarem avançar para abril com a mesma intensidade, deixam claro que o desafio é estrutural. Enquanto as mortes se acumularem e os alertas forem tratados como rotina, o ciclo das águas seguirá sendo também o ciclo da perda. O que se impõe é transformar previsibilidade em prevenção, antes que o próximo temporal cobre um novo preço.
