As chuvas e as repetidas tragédias anunciadas

Por

O verão brasileiro volta a cumprir, mais uma vez, um roteiro conhecido. No fim de fevereiro e na virada para março, as nuvens carregadas chegam, os alertas se multiplicam e, com eles, a apreensão de quem vive em encostas, margens de rios ou áreas historicamente vulneráveis. Em 2026, as notícias sobre temporais no litoral de São Paulo, tanto na região Norte quanto na região Sul, e também, menos graves, porém factuais, na região metropolitana do Rio de Janeiro, repetem um cenário que o país insiste em tratar como surpresa, quando, na verdade, é rotina.

As chuvas intensas têm provocado alagamentos, deslizamentos e interrupções em cidades do litoral paulista, região que já foi palco de uma das maiores tragédias recentes do país. Em 2023, um temporal devastador atingiu o litoral norte de São Paulo, deixando dezenas de mortos e desaparecidos, além de milhares de desabrigados. O que se vê agora é a lembrança de que a geografia continua a mesma, o risco continua presente e a repetição não é coincidência.

No estado do Rio, a memória ainda é mais dolorosa. Em fevereiro de 2022, Petrópolis viveu a maior tragédia de sua história. Foram mais de 230 mortes em poucas horas, após um volume de chuva equivalente ao esperado para um mês inteiro cair sobre a cidade. Encostas cederam, casas foram soterradas, ruas desapareceram sob lama e escombros. O que ficou não foi apenas destruição material, mas uma cicatriz coletiva que o tempo não conseguiu apagar.

Outras cidades fluminenses também carregam esse histórico. Ainda em 2022, temporais no estado deixaram mortos, desalojados e cidades inteiras em estado de alerta, com volumes de chuva extremos em poucas horas. Na Baixada Fluminense, como em tantas outras regiões, a combinação de ocupação desordenada, drenagem insuficiente e eventos climáticos intensos forma uma equação previsível e perigosa.

É importante dizer que a chuva, por si só, não é a tragédia. O problema é quando ela encontra cidades despreparadas para resistir. Não se trata de buscar culpados imediatos, mas de reconhecer um padrão. O Brasil reage com eficiência quando a calamidade já está instalada. Mobiliza resgates, arrecada doações, decreta emergências. Mas ainda investe pouco, ou investe tarde demais, naquilo que realmente salva vidas, a prevenção.

Há ainda um fator que agrava esse ciclo e precisa ser encarado com mais seriedade. Eventos climáticos têm se tornado mais intensos e concentrados, com volumes de chuva cada vez maiores em intervalos menores de tempo. Isso significa que o que antes já era risco hoje se transforma em ameaça ainda mais imediata. Ignorar essa mudança é permitir que tragédias anunciadas se tornem mais frequentes e mais devastadoras a cada verão.

Mapeamento de áreas de risco, sistemas de alerta eficientes, políticas habitacionais que retirem famílias de encostas, obras de drenagem, planejamento urbano. Essas medidas são conhecidas, debatidas e repetidas após cada desastre. Ainda assim, seguem sendo implementadas de forma desigual, fragmentada ou insuficiente diante da urgência.

O calendário das chuvas não muda. A pergunta que se impõe, a cada verão, é outra. Até quando o país vai aceitar que a tragédia também seja parte da estação?