Estamos formando alunos-clientes?

Estamos formando apenas "alunos-clientes" ?

Por Ana Carolina Martins

O lamentável episódio ocorrido em uma escola particular -  e cara - de Campinas  em que um porteiro denunciou ter sido chamado de "negro sujo", "macaco" e "sub-raça" por alunos da instituição, revela-se como um sintoma de uma ferida histórica que insiste em permanecer aberta: o racismo estrutural, que atravessa gerações, ambientes e classes sociais. Quando a vítima relata ter se sentido "muito constrangido", a palavra constrangimento soa até branda diante da violência simbólica e moral presente  nas expressões dirigidas a ele.

A gravidade do caso se amplia por ter ocorrido dentro de uma instituição de ensino, um espaço que deveria ser, por definição, território de formação ética, respeito e cidadania. Afinal, a escola não pode ser apenas uma reles transmissora de conteúdo acadêmico, aparentemente mais preocupada em garantir o nome de seus alunos nas nas melhores universidades. Ela é, fundamentalmente, importante formadora de valores. Quando adolescentes reproduzem ofensas racistas com tamanha naturalidade e sem temer as consequências, torna-se legítimo perguntar: quais referências estão recebendo no âmbito escolar?Os temas basilares e cruciais de igualdade, diversidade e direitos humanos.

Outro ponto que causa perplexidade diz respeito à demissão do trabalhador após a denúncia, ainda que a instituição negue relação entre os fatos. A decisão corrobora com a percepção pública de que denunciar gera consequências, ainda que seja o correto e justo para você e a sociedade.

Caso seja confirmado que houve retaliação, o  cenário se torna ainda mais preocupante, no qual a vítima, além de sofrer a agressão, arcaria com o ônus profissional de ter buscado justiça. Cabe ao Ministério Público do Trabalho e à Polícia Civil realizar apuração rigorosa e transparente dos acontecimentos, para não minimizar episódios dessa natureza. Campinas orgulha-se do seu desenvolvimento econômico e educacional. Entretanto, progresso material não é sinônimo de evolução social automática. O verdadeiro avanço se mede pela capacidade de enfrentar preconceitos arraigados e promover ambientes seguros e respeitosos para todos. O porteiro ofendido representa milhares de trabalhadores que sustentam, com dignidade, o funcionamento das instituições de ensino. Respeitá-los não é favor, é OBRIGAÇÃO. A esperança é a de que este indigno fato vá além e sirva de chamado coletivo à responsabilidade. Porque educação de qualidade não combina com racismo.