Maus-tratos a animais e omissão parental

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A ciência comportamental e a criminologia moderna estabelecem uma ligação direta entre a crueldade animal na juventude e a escalada para crimes violentos contra humanos na vida adulta. Maltratar um animal é um indicativo de psicopatia ou de um transtorno de conduta grave, que sinaliza que o adolescente pode se tornar um criminoso perigoso no futuro, caso não haja uma intervenção estatal e pedagógica rigorosa.

A falta de remorso ao ver o sofrimento de um ser senciente demonstra uma desconexão moral que facilita a prática de outros delitos, pois a barreira da violência já foi rompida. O assassinato brutal do cão comunitário Orelha, na Praia Brava, em Florianópolis (SC), não chocou o mundo à toa. A indignação e repercussão internacionais revelam uma face sombria da desestruturação familiar e da ausência de limites na formação de jovens.

O animal, já idoso, de cerca de 10 anos de idade, era símbolo de doçura e convivência harmônica, mas foi submetido a um sofrimento físico extremo por um grupo de adolescentes que ignorou qualquer senso de empatia ou humanidade.

Os fatos provam que o cãozinho foi encontrado com lesões graves na cabeça, causadas por objeto contundente e precisou passar por eutanásia devido à irreversibilidade do quadro clínico. A investigação policial aponta o envolvimento de quatro jovens de famílias de alto poder aquisitivo e o indiciamento de parentes por coação de testemunhas, evidenciando uma proteção familiar deletéria que tenta blindar infratores em vez de educá-los à responsabilidade civil.

A omissão parental é patente e alarmante, pois a conduta de adolescentes que praticam atos de crueldade contra seres indefesos não surge ao acaso. É fruto de uma educação negligente que falha em transmitir valores éticos fundamentais.

O fato de familiares serem suspeitos de tentar intimidar vigilantes e ocultar provas mostra que a conivência substituiu a autoridade parental, transformando a casa em um reduto de impunidade.

Isso porque, quando pais permitem que os filhos ajam com violência e depois utilizam de influência para obstruir a Justiça, não estão protegendo os jovens, mas, sim, legitimando um comportamento antissocial que tende a se agravar com o passar do tempo. A viagem de alguns desses jovens para o exterior, logo após o crime, soa como um escárnio diante da dor da comunidade e da gravidade da infração cometida.

É imperativo que a sociedade e o sistema judiciário tratem o caso Orelha com a seriedade que exige, aplicando as medidas socioeducativas previstas e responsabilizando os adultos que, por ação ou omissão, permitiram que essa barbárie ocorresse, a fim de que novas atrocidades não sejam cometidas por estes mesmos jovens.