A dor da ausência presente no país

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Há dores que não têm corpo, mas pesam como se tivessem. A de quem vive a ausência de um ente querido desaparecido é uma delas. Não há luto completo, não há despedida, não há resposta. O tempo passa, os dias seguem, mas a vida fica suspensa na espera. Em um país que registrou 84.760 pessoas desaparecidas apenas em 2025, o equivalente a 232 sumiços por dia, essa dor deixou de ser exceção e se tornou um drama coletivo que o Brasil insiste em tratar de forma fragmentada.

Os números falam alto. O crescimento de 4,1% em relação a 2024 revela que o problema não apenas persiste, como avança. Desde 2015, o total de registros só caiu durante os anos mais restritivos da pandemia, período marcado por subnotificação e dificuldade de acesso às delegacias. Ou seja, a redução não foi fruto de políticas eficazes, mas de um contexto excepcional. Passada a crise sanitária, a realidade voltou a se impor com força ainda maior.

É verdade que o número de pessoas localizadas também aumentou nos últimos anos, reflexo de algum aprimoramento nas ferramentas de busca e na troca de informações entre instituições. Mas esse dado, isoladamente, não consola quem espera. Para cada reencontro, há famílias que seguem presas à incerteza, enfrentando um sistema que ainda falha em acolher, investigar e agir com a urgência que o desaparecimento exige. A ausência de integração plena entre estados, bancos de dados incompletos e a demora na consolidação de um cadastro nacional eficiente revelam um Estado que reage, mas não antecipa.

Mais grave ainda é reconhecer que os números oficiais não dão conta da complexidade do problema. Muitos desaparecimentos estão ligados a violências profundas, como homicídios, exploração, discriminação e atuação de grupos criminosos. Em diversos contextos, o medo, o preconceito institucional e a desinformação afastam familiares do registro formal, ampliando a invisibilidade. Crianças, mulheres, populações indígenas e pessoas em situação de rua acabam duplamente apagadas: pela ausência e pela falta de resposta.

A Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas foi um passo importante, mas insuficiente. Passados quase sete anos de sua criação, ela ainda caminha lentamente, com adesão parcial dos estados e estrutura aquém da urgência do problema. Enquanto dados biométricos não se comunicam, enquanto delegacias não compartilham informações em tempo real e enquanto persistem mitos como a falsa necessidade de esperar horas para registrar um desaparecimento, vidas seguem se perdendo no labirinto da burocracia.