Descanso para uns, prejuízo para outros

Por Raphaela Cordeiro - RMC

Feriados são pausas necessárias. Representam tempo de descanso, convivência familiar e, para muitos, a chance de viajar e lazer. Mas, quando se observa o calendário de 2026 sob a ótica econômica, especialmente do comércio varejista, o descanso de uns se transforma em prejuízo concreto para outros. Em cidades com forte vocação comercial, como Campinas, a concentração de feriados nacionais e emendas com fins de semana acende um sinal de alerta que não pode ser ignorado.

Estimativas do Sindivarejista Campinas, baseadas em estudos da FecomercioSP, indicam que o varejo campineiro pode deixar de faturar até R$ 500 milhões em 2026 em função dos feriados prolongados. O número, por si só, já impressiona. Mas o impacto vai além da cifra e se espalha por toda a cadeia produtiva, afeta empregos e fragiliza negócios que já operam em um ambiente de juros altos.

Diferente de municípios turísticos, que conseguem compensar parte das perdas com o aumento do fluxo de visitantes, Campinas sente o efeito inverso. Quando o feriado chega, parte significativa da população viaja, esvazia a cidade e reduz drasticamente o consumo cotidiano. O comércio, que depende do movimento constante de pessoas, vê as portas abertas para menos clientes, enquanto custos fixos seguem correndo.

O excesso de interrupções na atividade econômica cria descontinuidade no fluxo de vendas, dificulta o planejamento e aumenta o risco de estoques encalhados. Para o pequeno e médio empresário, que não dispõe de grandes reservas financeiras, cada feriado prolongado pode representar um desequilíbrio difícil de absorver. O resultado é um cenário de insegurança. Isso não significa defender o fim dos feriados ou ignorar sua importância social. O debate é mais complexo e exige equilíbrio. Planejamento público, diálogo com o setor produtivo e políticas que considerem as especificidades econômicas de cada cidade são fundamentais. Não faz sentido tratar de forma homogênea realidades tão distintas quanto polos turísticos e centros comerciais regionais. Diante desse quadro, o varejo precisa reagir com estratégia. Antecipar campanhas, ajustar estoques, rever escalas de trabalho e fortalecer os canais digitais são medidas cada vez menos opcionais e mais necessárias. O comércio que sobreviverá a 2026 será aquele capaz de se adaptar, inovar e dialogar melhor com um consumidor que muda seus hábitos conforme o calendário.

O descanso é legítimo, mas o custo econômico também é real. Ignorá-lo é correr o risco de transformar feriados em um problema estrutural para o comércio.