O nosso vício de cada dia

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A informação divulgada pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) de que pesquisadores da instituição identificaram um canabinoide sintético nunca antes descrito no mundo é científica na forma, mas profundamente social em seu conteúdo. Ela escancara algo que preferimos tratar como exceção, quando já se tornou regra: vivemos em uma sociedade cada vez mais viciada.

Viciada em substâncias, em comportamento, em estímulos, em recompensas rápidas… tudo direto na veia… Viciada em anestesiar o enorme desconforto de existir frente aos inúmeros desafios que a realidade impõe.

Contudo, seria ingênuo enxergar o problema apenas pela perspectiva da fabricação, tráfico ou clandestinidade. A dependência que nos atravessa é mais ampla, profunda, angustiante, e, em muitos casos, socialmente aceita. Somos dependentes do celular - que não sai da mão -, do aplicativo que nos recompensa com curtidas, da comida ultraprocessada que consola, do remédio que promete aliviar qualquer mal-estar, do álcool que "socializa", do cigarro eletrônico, "vendido" como inofensivo…

Quando o vazio aperta, buscamos algo — qualquer coisa — que desligue a dor, a angústia frente à nossa impotência ou que acelere o prazer a um nível de quase loucura.

Os canabinoides sintéticos são a face mais cruel dessa lógica. Vendidos como uma substância relacionada ao prazer, eles entregam convulsões, psicose, taquicardia, depressão respiratória e, não raramente, a morte. Não produzem relaxamento, mas colapso. Ainda assim, mantêm um público consumidor fiel e disposto a "pagar o preço".

E por quê? Porque não se trata apenas de escolha consciente individual, mas de um contexto coletivo de adoecimento emocional, precarização da vida, ansiedade crônica e falta de horizonte.

O dado trazido pelo Centro de Informação e Assistência Toxicológica, de que os canabinoides sintéticos já lideram as intoxicações entre as novas drogas psicoativas, deveria soar como um potente alarme público. Combatemos moléculas enquanto produzimos pessoas exaustas, solitárias e sem tempo para elaborar o próprio sofrimento.

Talvez o canabinoide descoberto seja menos uma novidade e mais um espelho. Um reflexo incômodo de uma sociedade que já não sabe lidar com limites e frustrações. Enquanto não enfrentarmos o vício estrutural no consumo, continuaremos trocando fórmulas químicas sem interromper a engrenagem que as torna necessárias.