Promessa aos "velhinhos"
Duas palavras pouco compreendidas circularam nas últimas semanas: etarismo e capacitismo. A primeira diz respeito ao preconceito relacionado à idade; a segunda, à discriminação de pessoas com deficiência. Ambas ganharam destaque depois que Flávio Bolsonaro, durante o debate presidencial da TV Globo, disse ter dificuldade para entender o que Lula falava e, em outro momento, referiu-se ao presidente como "nove dedos".
Lula perdeu o dedo mínimo da mão esquerda em 1964, quando ainda era um jovem torneiro mecânico. Foi um acidente de trabalho que deixou uma marca para o resto da vida. O candidato derrotado chegou a pedir desculpas depois de ser cobrado pelo presidente. Ainda assim, o episódio merece reflexão. Não é preciso concordar com Lula, nem mesmo gostar dele, para compreender que sua idade ou uma deficiência física não deveriam servir de instrumento de ataque político.
Após a vitória, Lula agradeceu especialmente aos jovens e aos idosos. Disse ter se emocionado ao ver pessoas com dificuldades de locomoção chegando às urnas com a ajuda dos netos. Prometeu, então, dar mais atenção aos "velhinhos" durante seu próximo mandato.
Que a promessa não seja apenas fruto da empolgação com a vitória. Lula deve aos idosos. E não é pouco.
Fiquei pensando naquelas pessoas que precisaram da ajuda dos netos para chegar às urnas. Quem as acompanha quando precisam ir ao médico? Quem busca seus medicamentos, resolve problemas no banco ou percebe que já não estão conseguindo cuidar da própria casa? Muitas vezes, essas responsabilidades ficam com familiares que precisam conciliar o cuidado com o emprego e suas próprias obrigações.
A cena que comoveu o presidente no domingo pode fazer parte da rotina de milhares de famílias durante o restante do ano.
Boa parte daqueles eleitores também convive com alguma deficiência. Segundo o Censo de 2022, quase metade dos brasileiros com deficiência tem 60 anos ou mais. Para quem anda com dificuldade, ir ao posto de saúde pode significar enfrentar calçada quebrada e ônibus sem elevador. Isso também é capacitismo. E acontece todos os dias, não só em debate na televisão.
O Brasil envelhece rapidamente. Segundo o IBGE, em 2012, os brasileiros com 60 anos ou mais representavam 11,3% da população. Em 2025, já eram 16,6%. Mas envelhecer não significa, necessariamente, perder a autonomia. Há quem chegue aos 80 trabalhando, viajando e administrando a própria vida. Outros precisam de assistência permanente.
Há também quem continue cuidando da própria vida, mas deixe de encontrar os amigos, perca o interesse por atividades de que gostava ou passe a conviver com uma tristeza persistente. Nem sempre a família percebe essas mudanças. É fácil atribuir tudo à idade. Mas a depressão não é consequência natural do envelhecimento. Segundo o IBGE, os idosos estão entre os que mais recebem esse diagnóstico. E o atendimento psicológico ou psiquiátrico não deveria ser considerado menos importante do que o acompanhamento da pressão arterial ou do diabetes.
O governo Lula sancionou, em 2024, a Política Nacional de Cuidados. No ano seguinte, apresentou um plano com 79 ações e investimentos previstos até 2027. É uma iniciativa importante, que reconhece a responsabilidade do Estado por quem precisa de cuidados e por quem cuida. Mas agora é preciso saber o que efetivamente chegará à população, especialmente às famílias que hoje assumem essas responsabilidades praticamente sozinhas.
Minha avó, de 87 anos, que não votou em Lula, quer saber: o que o presidente pretende fazer por ela?