☰
✕

Fim da 6X1! O trabalhador merece mais, mas quem vai pagar essa conta?

Por Nei Carvalho

Todo trabalhador merece tempo para descansar, ficar com a família e aproveitar a vida para além do trabalho. Isso não está em discussão. O problema começa quando uma proposta que mexe diretamente com a economia é apresentada como se não existissem consequências. O fim da escala 6X1 pode parecer uma vitória para quem trabalha seis dias e descansa um, mas a pergunta é: alguém está pensando no que vem depois? O Brasil tem milhões de pequenos e médios empresários que lutam diariamente para manter as portas abertas. São comerciantes, donos de restaurantes, padarias, hotéis e mercados que geram empregos e movimentam a economia. Muitos já enfrentam impostos elevados e dificuldades para fechar as contas. Se a jornada mudar, como essas empresas vão se adaptar? Será necessário contratar mais funcionários? Os custos vão aumentar? Os preços poderão subir? E, se o empresário não conseguir pagar essa conta, o que acontecerá com os empregos? Essas perguntas não significam ser contra o trabalhador. Significam levar o assunto a sério. Melhorar a qualidade de vida é importante, mas uma mudança dessa dimensão exige planejamento e diálogo (será que houve de forma responsável?). Não adianta criar uma expectativa de vitória hoje e descobrir amanhã que os custos aumentaram, que o pequeno negócio fechou ou que novas contratações se tornaram inviáveis. O trabalhador precisa de mais tempo para viver, mas também de emprego e renda para sustentar sua família. Outro ponto que chama a atenção nessa história é a tentativa do presidente Lula de aproximar essa discussão do público evangélico, com o argumento de que o fim da escala 6X1 permitirá aos fiéis mais tempo para frequentar cultos e participar das atividades da igreja. É verdade que muitos trabalhadores desejam mais tempo para estar com Deus e com a família. Mas usar a fé como argumento político exige cuidado. A fé de milhões de brasileiros merece respeito, não deve ser tratada como instrumento para conquistar votos. Em período eleitoral, precisamos olhar com atenção para discursos que apresentam propostas complexas como soluções simples. O trabalhador não pode ser tratado apenas como eleitor, assim como o evangélico não pode ser visto apenas como um voto a conquistar. São cidadãos que merecem informação clara e respeito à sua inteligência. Ninguém deveria precisar escolher entre ter tempo para viver e ter condições de sobreviver. O país precisa valorizar o trabalhador sem ignorar a realidade de quem empreende e gera empregos. O debate não pode ser movido apenas pela emoção, muito menos por interesses eleitorais. Afinal, quando a campanha termina, os discursos ficam para trás, mas as consequências das decisões continuam na vida de todos nós.

O trabalhador merece descanso, respeito e dignidade, só não merece que seu dia de descanso vire palanque eleitoral.