O catolicismo volta ao palco da eleição
Uma informação envolvendo Nossa Senhora Aparecida irrompeu na campanha presidencial e, em poucas horas, atravessou redes, púlpitos e grupos políticos. Não se tratava apenas de religião: tratava-se de identidade nacional, de memória coletiva, de um símbolo que, para milhões de brasileiros, ocupa um lugar que nenhuma disputa eleitoral deveria profanar e, no entanto, foi profanado.
A história nasceu de um projeto de lei antigo, quase esquecido, arquivado desde 2008 e sem qualquer relação com a candidatura de Flávio Bolsonaro. Ainda assim, a associação entre o candidato e uma suposta tentativa de retirar de Nossa Senhora o título de Padroeira do Brasil ganhou circulação veloz, como costumam ganhar as narrativas que tocam o sagrado. E, ao fazê-lo, produziu um efeito político imediato.
O mais revelador, porém, não está na origem da controvérsia, mas no que ela desencadeou. Uma campanha que vinha tratando a religião sobretudo pelo prisma evangélico viu, de repente, o catolicismo, silencioso, majoritário, estrutural, voltar ao centro da conversa.
O episódio
Em 2007, o então deputado Victório Galli apresentou o Projeto de Lei 2.623/2007, propondo alterar a redação da lei que instituiu o feriado de 12 de outubro. Em vez de "Padroeira do Brasil", o texto sugeria "Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos". O projeto foi rejeitado e arquivado no ano seguinte.
Nada disso tem relação com Flávio Bolsonaro. Nada disso está em tramitação. Nada disso compõe o programa de sua candidatura.
Mas, na quinta-feira, durante o Em Pauta, da GloboNews, uma menção a uma suposta mobilização evangélica em torno de um projeto sobre a Padroeira abriu espaço para uma associação que, embora corrigida horas depois, já havia se espalhado. A emissora pediu desculpas. O estrago estava feito.
Flávio negou qualquer vínculo. Sua campanha acionou o TSE. O ministro André Mendonça determinou a retirada de conteúdos que apresentassem como verdadeira a informação de que o candidato ou sua família pretendiam retirar o título de Nossa Senhora Aparecida. Classificou a associação como "notoriamente inverídica". Mas, o ministro Flávio Dino invalida a medida.
O efeito político
A controvérsia ganhou vida própria. A associação entre o candidato e uma suposta ameaça à Padroeira passou a circular junto de debates sobre fé, valores e identidade, e isso explica a força que o tema adquiriu.
É preciso distinguir mobilização social de estratégia institucional. A reação de católicos, padres, influenciadores e grupos ligados à Igreja mostra repercussão, mas não autoriza concluir que exista uma ação coordenada da Igreja Católica na eleição.
O que se pode afirmar é que a religião entrou no centro da disputa por um caminho inesperado: não por decisão de campanha, mas pela circulação de uma informação que acabou sendo corrigida.
Da corrupção ao sagrado
O episódio deslocou o eixo da campanha. Uma controvérsia nascida de um projeto de 2007 passou a disputar espaço com economia, corrupção e o caso Banco Master. O debate migrou para outro terreno: o da fé, da identidade e dos símbolos nacionais.
Até então, a clivagem religiosa estava muito associada ao eleitorado evangélico. Lula buscava ampliar seu diálogo com esse segmento, enquanto a dimensão católica de seu eleitorado permanecia menos explorada.
A controvérsia envolvendo Nossa Senhora recolocou o catolicismo no centro da cena. Uma informação corrigida acionou emoções, identidades e referências religiosas que vinham recebendo menos atenção. E, em vez de falar apenas a linguagem dos louvores, a campanha passou a incorporar símbolos e referências católicas.
O peso dos católicos e a voz da CNBB
Esse movimento não é trivial. Os católicos representam mais da metade do eleitorado brasileiro, um contingente numeroso, capilarizado e politicamente relevante. E sua principal instituição, a CNBB, exerce influência moral e simbólica que atravessa dioceses, paróquias e comunidades.
A CNBB, aliás, entrou no episódio. Após a circulação da informação falsa, Flávio Bolsonaro afirmou que a Conferência teria criado fake news sobre sua candidatura. A CNBB reagiu de forma contundente: classificou a acusação como mentira e reafirmou que não produz conteúdos desse tipo. A manifestação ampliou a visibilidade da controvérsia e reforçou a sensibilidade do tema entre católicos.
Primeiro movimento mensurável
A pesquisa Quaest divulgada em 28 de setembro, registrou crescimento de Lula entre eleitores católicos. Não se trata de estabelecer causalidade direta, mas de reconhecer que, no mesmo momento em que o catolicismo voltou ao palco da campanha, o segmento apresentou seu primeiro movimento mensurável.
Por ora, há uma conclusão possível: Nossa Senhora Aparecida entrou na campanha presidencial. E, quando a Padroeira entrou em cena, o debate religioso deixou de falar apenas a linguagem evangélica e passou também a falar a linguagem católica , uma linguagem que, historicamente, o Brasil conhece muito bem.