Bets: já foram tarde
O vício não aparece na vida de alguém por mágica. Geralmente encontra alguma brecha para entrar. Pode ser ansiedade, solidão, frustração, aperto financeiro ou a esperança de resolver a própria vida de forma rápida. O mercado das apostas online percebeu que havia muito dinheiro a ganhar justamente aí.
Bastava um celular para apostar e perder grandes quantias no conforto do próprio travesseiro. A comodidade, a facilidade com que se joga e o fato de que, no conjunto, os apostadores perdem mais do que ganham transformaram esse mercado em um negócio bilionário e disputado. E não eram poucos os fisgados. Segundo o Ministério da Saúde, em 2023, 10,9 milhões de brasileiros já apresentavam padrão de jogo de risco ou problemático.
O cérebro gosta de recompensa rápida, e as apostas online entregam isso a cada poucos segundos. Não é apenas ganhar que estimula. É a possibilidade de ganhar na próxima. O "vai que agora" ajuda a explicar por que perder uma vez, duas, dez vezes não faz alguém parar. Pelo contrário: a perda vira motivo para apostar de novo, na tentativa de recuperar o que se foi.
Conheço uma pessoa, vamos chamar aqui de Francisco, na faixa dos 40 anos, que trabalhava como motorista de aplicativo. Durante meses, apostou nas bets praticamente tudo o que ganhava. Primeiro, deixou de conseguir pagar as contas. Depois, a prestação do carro. Acabou devolvendo o veículo à concessionária. Sem carro, ficou também sem trabalho. Entrou em depressão profunda. Viu a esposa sair de casa.
Hoje, mora com os pais. Para quem estava de fora, ele tinha sido irresponsável, imprudente. É a leitura mais comum, e talvez a que mais atrapalhe: quem se sente julgado tende a esconder o problema, não a pedir ajuda. Agora, Francisco tenta se recuperar em grupos anônimos.
Francisco é o retrato das bets que nunca apareceu na propaganda.
Ganharam as empresas que operavam os jogos. Ganharam também aqueles que lucravam anunciando. Times de futebol, artistas e influenciadores emprestaram nome, rosto e credibilidade às bets. Fizeram isso durante anos sem o rosto corar.
A conta ficou com outros. O Instituto de Estudos para Políticas de Saúde estima em R$ 38,8 bilhões por ano o custo social das apostas no país, a maior parte ligada à saúde: tratamento de depressão e ansiedade, perda de qualidade de vida, suicídios. Em um ano de mercado regulado, a União arrecadou quase R$ 5 bilhões com as bets. E, desse valor, pouco mais de 1% foi para a saúde. A arrecadação não pagou nem uma fração do estrago.
O governo proibiu as bets da noite para o dia, menos de dois anos depois de o mercado regulado começar a operar. Fez isso por Medida Provisória, nove dias antes do primeiro turno, e houve quem enxergasse cálculo eleitoral nisso. Pode até haver. Mas, para mim, isso é secundário diante do principal: as bets foram proibidas. Ponto final (ou provisório).
A proibição das bets não acaba com o vício. Sites clandestinos existem aos montes. Só nesta semana, os ministérios da Justiça e da Fazenda pediram a derrubada de mais de 5 mil domínios ligados a apostas ilegais.
Basta olhar para algo que o Rio conhece há décadas. O jogo do bicho é proibido. Nem por isso desapareceu. Quem procura, encontra. E quase ninguém na cidade precisa de explicação sobre onde fazer uma fezinha. Mas o bicho nunca esteve no celular de todo mundo, 24 horas por dia, nem no intervalo do futebol, nem na boca de influenciadores. A proibição não zera a demanda. Reduz o alcance. E, para quem ainda não foi fisgado, isso faz toda a diferença.
Proibir fecha a vitrine, mas não trata quem já perdeu o controle. Durante anos, o mercado trabalhou para tornar a aposta fácil, rápida e onipresente. Agora, o poder público precisa fazer o caminho inverso: dificultar o acesso ao jogo e facilitar o acesso ao cuidado. As bets já foram tarde. Quem adoeceu com elas continua aqui.