Melhor não comentar
No domingo, duas semanas depois de eu publicar "Não tenho nada contra o álcool. Ele é que tem contra mim", um amigo me perguntou se eu tinha certeza de que fiz a coisa certa. Ele falava da coluna em que escrevi, logo na primeira linha, que sou alcoólatra e estou em recuperação.
Perguntei por que ele achava que eu poderia ter errado. A resposta foi direta: as pessoas comentam, o diagnóstico fica associado ao meu nome e isso pode comprometer minha reputação e minha empregabilidade.
Não considerei a preocupação absurda. Antes de enviar aquela coluna ao editor deste jornal, fiquei balançado. Também tive dificuldade de nomear a doença de maneira clara, sem floreios. Tentei escrever de um jeito, depois de outro, até finalmente conseguir.
Meu amigo não tentou me diminuir. Tentou me proteger de um preconceito que ele sabe que existe. E pode estar certo ao imaginar que alguém lerá aquela coluna e passará a me considerar menos capaz para exercer uma função. O problema começa justamente aí.
Estar em tratamento deveria indicar que uma pessoa reconheceu uma doença e decidiu cuidar dela. No entanto, quando se trata de alcoolismo, dependência química ou de outras doenças mentais, o tratamento pode se transformar em suspeita. O diagnóstico chega antes do currículo, da experiência e de tudo o que aquela pessoa é capaz de fazer.
Por isso tanta gente adoece em silêncio ou evita buscar ajuda. Não necessariamente porque tenha vergonha da doença, mas porque conhece o preço que pode pagar se os outros souberem. No ambiente de trabalho, dizer que faz tratamento ainda pode significar deixar de ser visto como profissional para ser observado como um risco.
O preconceito não escolhe só a doença — escolhe também a frequência com que ela aparece.Em grandes empresas por onde passei, vi amigos se tornarem "problemáticos" depois de precisarem se afastar do trabalho mais de uma vez no mesmo ano.
O estigma escolhe também o cargo. Numa empresa em que trabalhei por anos, funcionários que entravam de licença médica — por depressão, burnout ou outras causas — eram, quase sempre, expostos. Diretores, no máximo, tinham uma "estafa". Pelo menos era isso que chegava à equipe.
Reconheço o privilégio de trabalhar em um lugar onde uma questão como essa não é um problema. Também tenho um chefe que me apoia. Mas sei que essa não é a realidade de muita gente. Não tenho vergonha daquilo que faz parte da minha história, nem acho que precise transformar minha intimidade em assunto permanente. Não sou um outdoor ambulante.
Também não escrevo sobre isso para convencer ninguém a expor um diagnóstico. Cada pessoa sabe o que pode e o que deseja tornar público.
Talvez por estudar saúde mental há tantos anos, encare com naturalidade qualquer diagnóstico que alguém compartilhe comigo. Faço sempre um exercício simples: penso que poderia ser eu.