Precisa-se de psicólogos no SUS

Por Victor Corrêa

No Brasil, o que deveria ser básico muitas vezes vira privilégio. É o caso de consultas com um psicólogo.

O país tem mais de 600 mil psicólogos registrados. Fiquei realmente espantado ao descobrir que apenas 11,3 mil atuam no SUS, segundo o Conselho Federal de Psicologia. Menos de 2% do total. Parece que o Estado não está tão preocupado em escutar.

Estou entre os privilegiados. Faço terapia com psicólogo há 19 anos, ininterruptamente. Quando mais jovem, o plano de saúde da empresa custeava. Em outros momentos, tive que arcar com os custos de um psicólogo particular. Minha possibilidade de continuar em terapia sempre dependeu, de uma forma ou de outra, de ter como pagar por ela.

Terapia não é luxo. É tratamento de saúde. Sua eficácia em quadros como depressão e ansiedade é respaldada por evidências científicas. A Organização Mundial da Saúde afirma que intervenções psicológicas podem ser altamente eficazes para diferentes condições de saúde mental, especialmente depressão e ansiedade.

Por outro lado, a venda de antidepressivos e estabilizadores de humor aumentou 11% entre 2022 e 2023, segundo levantamento do Conselho Federal de Farmácia. Estamos medicando mais e ouvindo menos?

Não coloco uma coisa contra a outra. Medicamentos são fundamentais para muita gente e podem fazer parte do mesmo tratamento que a psicoterapia. O problema é quando uma parte do tratamento está ao alcance e a outra vira privilégio. Quem não encontra atendimento psicológico pelo SUS e também não pode pagar acaba procurando alternativas: clínicas escola de universidades, instituições filantrópicas, projetos sociais ou profissionais que oferecem consultas gratuitas ou a preços reduzidos. Ainda bem que existem.

Mas o problema mais grave talvez nem apareça nessas estatísticas: o Brasil sequer sabe quantas pessoas estão esperando por atendimento psicológico no SUS. Não há hoje um levantamento nacional sobre a dimensão dessas filas nas redes públicas das cidades brasileiras. Há quanto tempo esperam? Onde estão as maiores filas? Quantos profissionais seriam necessários?

Como planejar uma política nacional sem conhecer a dimensão da demanda? O SUS é descentralizado, mas uma política nacional precisa enxergar o país como um todo. Na saúde mental, ainda falta um retrato de quantas pessoas aguardam atendimento psicológico.

Um quadro moderado não precisaria se tornar grave para receber atenção. Cuidar cedo custa menos para o paciente, a família e o sistema.

Talvez o Estado realmente não esteja tão preocupado com tudo isso. Eu lamento, mas insisto: se terapia é tratamento, acesso a um psicólogo não pode continuar sendo privilégio de quem pode pagar.