O Brasil entre a recessão e o progresso
O Brasil entrará em recessão em 2027? A pergunta preocupa famílias endividadas, empresas sob crédito caro e investidores que sofrem pelo endividamento e pelos juros elevados. A recessão pode ser evitada, mas exigirá reformas e um entendimento político ausente do debate eleitoral.
O Morgan Stanley, instituição com mais de US$ 9 trilhões em ativos de clientes, analisou os países emergentes com atenção ao Brasil. O resultado não dependerá apenas de quem vencerá as eleições, mas do caminho escolhido pelo próximo governo.
No cenário mais favorável, o Brasil enfrenta reformas difíceis e apresenta, no início de 2027, um plano fiscal confiável para controlar as despesas obrigatórias e estabilizar a dívida. O dólar recuaria para R$ 4,50, a Selic cairia para 9,75%, o PIB cresceria 1,5% e o Ibovespa alcançaria 250 mil pontos. A dívida começaria a se estabilizar em torno de 86% do PIB em 2028.
No cenário intermediário, reformas medianas evitariam uma crise, mas não corrigiriam os desequilíbrios. O dólar ficaria em R$ 5,25, a Selic em 11% e o Ibovespa chegaria a 215 mil pontos. Seria o gradualismo brasileiro: algum alívio, crescimento baixo e dívida ainda ascendente.
No caminho da continuidade, sem estratégia convincente, o crescimento seria de apenas 0,2% em 2027, a inflação ficaria próxima de 5%, a Selic poderia subir para 15,5%, o dólar chegaria a R$ 6 e o Ibovespa cairia para 130 mil pontos. A dívida ultrapassaria 100% do PIB em 2033.
Crescer 0,2% não configura tecnicamente uma recessão anual. Na vida real, seria quase isso: queda da renda por habitante, crédito proibitivo, investimentos suspensos e consumo comprimido. Qualquer choque poderia empurrar a economia para o campo negativo.
A desconfiança fiscal pressiona o dólar, alimenta a inflação, impede a queda dos juros e paralisa investimentos. Uma economia fraca torna a dívida mais difícil de controlar. FMI, OCDE, Banco Mundial e Banco Central divergem sobre a intensidade do risco, mas convergem sobre sua origem.
Há outro alarme. No Ranking Mundial de Competitividade 2026, o Brasil caiu sete posições e ocupa o 65º lugar entre 70 economias. No Índice de Liberdade Econômica, recuou da 117ª para a 134ª posição. Eles medem custo de fazer negócios, eficiência do governo, segurança jurídica e liberdade para investir. Na prática, o Brasil é hostil ao capital produtivo.
Temos baixa poupança interna. Os juros atraem os recursos disponíveis para financiar o Estado, enquanto burocracia, tributação complexa e instabilidade regulatória afastam projetos. O investimento estrangeiro poderia completar a poupança nacional, trazendo capital, tecnologia e produtividade. Mas o capital compara países, riscos e retornos.
Existem reformas com dois tempos. No curto prazo, equilíbrio fiscal, controle das despesas obrigatórias e trajetória confiável para a dívida reduziriam o risco, os juros e a ameaça de recessão. No longo prazo, reforma administrativa, simplificação regulatória, segurança jurídica, abertura econômica, infraestrutura e educação elevariam a produtividade e tornariam o Brasil competitivo.
Nada disso está no centro da campanha. Discutem-se poder, nomes, alianças e antagonismos, enquanto a questão que definirá 2027 permanece lateral. Os conflitos entre os Poderes e a fragmentação política poderão sobreviver às urnas, dificultando maiorias para reformas que exigem coordenação e liderança.
As reformas dos governos Fernando Henrique Cardoso e Michel Temer avançaram quando o país havia beijado a lona. Fernando Henrique enfrentou a inflação e a desorganização econômica; Temer recebeu uma economia devastada por uma recessão histórica. A gravidade abriu espaço para decisões antes impossíveis.
Não deveríamos precisar ser nocauteados novamente para reagir. Esperar a estagnação de 2027 e a deterioração da dívida para então reformar seria impor à população um sofrimento evitável. A política precisa agir antes que a realidade imponha o ajuste.
O Brasil possui alimentos, energia, petróleo, minerais, tecnologia, empresas competitivas e um grande mercado. A reorganização mundial abre uma oportunidade extraordinária, mas países também perdem oportunidades.
Nenhum país se desenvolve sem investimento, nenhum investimento se sustenta sem poupança e nenhuma poupança se transforma em produção sem confiança. Evitar a recessão é a tarefa imediata; priorizar a competitividade é o projeto nacional. Nossos maiores desafios são made in Brazil: foram criados aqui e terão de ser resolvidos por nós, brasileiros.