O El Niño e seus diferentes impactos

Por Richard Stoltzenburg

Certamente você já ouviu falar nesse nome: El Niño. Caso não, trata-se de um fenômeno climático natural caracterizado pelo aumento da temperatura das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Esse aquecimento interfere na atmosfera e, consequentemente, pode afetar nosso cotidiano. Neste ano, a temperatura média das águas superficiais subiu mais de 2 °C entre junho e julho e 2,6 °C em agosto.

O pico de intensidade do El Niño, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), deve ser registrado no fim deste ano, em novembro. Como consequência, o fenômeno pode contribuir para períodos de seca, enchentes e ondas de calor mais extensas, inclusive em 2027, aumentando os riscos de eventos meteorológicos extremos.

A tendência é que o fenômeno permaneça até fevereiro do ano que vem. Segundo a ONU, a probabilidade de permanência do El Niño está próxima dos 100%. Mas de que forma isso nos afeta? Afeta a todos na mesma proporção? Claro que não. Se não, como se preparar? Qual é o público mais afetado e mais suscetível aos riscos? Essas são algumas das perguntas que precisamos fazer, pois a realidade é diferente para muitas pessoas.

Isso porque o calor dentro de um carro com ar-condicionado é completamente diferente daquele enfrentado por quem utiliza o transporte público. Em Petrópolis, por exemplo, os coletivos já enfrentam problemas relacionados à qualidade e à segurança do serviço, quanto mais à oferta de ar-condicionado. Esse é apenas um pequeno exemplo.

Mas, quando se trata da preservação de vidas, a discussão precisa ir além. As populações mais vulneráveis, sejam moradores de comunidades do município, sejam pessoas que vivem em locais com maior risco de deslizamentos durante períodos de chuva, recebem informações suficientes? Existem orientações adequadas? Essas pessoas sabem como agir diante de um alerta?

Petrópolis, caracterizada por seus morros e encostas, historicamente sofre com deslizamentos e outros movimentos de massa. A cidade precisa ser resiliente, mas isso não significa aceitar que, em todo período de chuva, casas, carros ou vidas sejam perdidos.

Nesta semana, o prefeito de Petrópolis se reuniu com o Governo Federal para abordar o tema e solicitou mais recursos à União. Claramente, Petrópolis não tem recursos suficientes para "bancar" sozinha medidas estruturantes de prevenção. A própria Defesa Civil passou por mudanças e teve sua estrutura ampliada após a tragédia de 2022. Então, sim, o município precisa do apoio de outros entes federativos.

Mas será que apenas os recursos são suficientes? Eles serão utilizados de que maneira? Preventivamente ou paliativamente? Como usar os recursos? É preciso conhecer a vulnerabilidade de cada local e de cada comunidade, além de compreender os desafios logísticos, geográficos e sociais. Conhecer o território é peça fundamental para a prevenção.

Quais debates são promovidos no município sobre emergências climáticas? É preciso fomentar essa discussão. No último dia 28 de agosto, o CEFET Petrópolis recebeu o Pré-COP, evento oficial da ONU voltado à juventude e ao clima. Um debate de suma importância, mas que precisa de mais divulgação e apoio, em todas as esferas e setores. Afinal, quando a chuva chega ou o calor aumenta, todos são impactados.

Portanto, é preciso unir o poder público, as instituições de ensino, as entidades e, principalmente, quem vive no território, a fim de, juntos, propor soluções possíveis e de acordo com a realidade local.

Território esse que produz ciência, conhecimento e evidências. Para além do período de chuva, é preciso pensar no calor. Existem pontos de hidratação suficientes nos terminais rodoviários? Nos parques públicos? Nas praças? Novos serão instalados?

De acordo com o IBGE, a pirâmide etária de Petrópolis mostra uma população predominantemente adulta e em processo de envelhecimento. Ou seja, em períodos de calor intenso, o acesso à água, à hidratação e a locais adequados para proteção térmica torna-se ainda mais importante para essa população.

Qual é a estrutura das residências do município? Todas têm condições adequadas para enfrentar temperaturas elevadas? Ora, seria essa uma responsabilidade do município? Evidentemente, não.

Contudo, qual é o impacto do calor extremo nas residências mais vulneráveis? A partir do momento em que uma pessoa precisa de atendimento de saúde em razão das condições climáticas, a questão também passa a ser um ponto a ser analisado pelo município.

É preciso investir em pesquisas, mapeamento e conhecimento do território. Compreender as características de cada região e saber como utilizá-las para prevenir riscos. É preciso pensar o fenômeno como um todo.

Ninguém quer uma nova tragédia no município. Mal superamos a última. Por isso, a prevenção não pode começar quando a chuva chega ou quando o calor extremo já está instalado. Precisa começar antes.