Corpo alheio não se discute

Por Victor Corrêa

Domingo à tarde. Festa de criança. Bolo, docinhos, salgadinhos. Não era exatamente o lugar para pensar em calorias.

Eu comia serenamente um cajuzinho quando uma amiga da família, com quem não tenho intimidade alguma, se aproximou. O cumprimento dispensou o "oi":

"Tá barrigudo, hein?"

O cajuzinho ficou pela metade. Ainda tentei amenizar o climão:

"Acontece com todo mundo, né?", eu disse, visivelmente desconcertado.

"Vamos melhorar", ela respondeu, sorrindo.

Voltei ao cajuzinho.

Não tenho problema com a suposta barriga protuberante que aquela mulher enxergou em mim. Ainda assim, me senti ofendido.

Ao meu lado estava Maria, minha prima. Para ela, o peso sempre foi uma questão mais delicada. Maria vive há anos o chamado efeito sanfona. Nos últimos tempos, depois de se dedicar ao CrossFit e recorrer ao Mounjaro, remédio da moda também usado para emagrecer, perdeu peso e voltou a se sentir melhor com o próprio corpo.

Fico feliz por ver Maria assim. O que me incomoda é pensar que, durante tanto tempo, o peso tenha interferido na maneira como ela própria enxergava sua beleza. Maria é uma mulher muito bonita. Sempre foi. Nenhum número na balança mudou isso.

Foi olhando para ela que pensei no alcance que uma frase dessas pode ter. Para algumas pessoas, um comentário feito em segundos pode destruir o dia, abalar a autoestima e engatilhar sentimentos nada positivos.

Segundo o Ministério da Saúde, em 2024, 25,7% dos adultos das capitais brasileiras e do Distrito Federal viviam com obesidade. Mais de um em cada quatro. O número dá a dimensão de uma condição comum e ainda cercada por julgamentos.

O próprio Ministério da Saúde chama atenção para o estigma relacionado ao peso, que pode aparecer como preconceito, discriminação ou até sob a aparência de incentivo para que alguém adote hábitos considerados mais saudáveis. Um comentário que constrange não vira cuidado só porque foi feito em nome da saúde.

É aí que costuma surgir a justificativa:

"Ah, mas não foi a intenção."

Pode até não ter sido. Ainda assim, foi ofensivo. Não ter querido ofender não muda o fato de que ofendeu.

Ninguém sabe exatamente o que o outro viveu antes de chegar ali. Pode haver uma história de transtorno alimentar, uma doença, uma medicação, uma depressão, um luto ou simplesmente anos de desconforto com a própria imagem.

E há também quem não esteja vivendo nada disso. Ainda assim, não pediu sua opinião.

Existe ainda o comentário que costuma vir embalado como elogio:

"Nossa, como você emagreceu!"

Para quem passou meses tentando perder peso e quer comemorar o resultado, a frase pode ser recebida exatamente assim: como um elogio. O problema é presumir que toda pessoa mais magra está melhor e deseja ter aquela mudança celebrada.

Emagrecer pode ser uma escolha, uma consequência ou até sinal de que alguma coisa não vai bem. Mas há outra questão menos óbvia. O entusiasmo com o corpo mais magro também pode dizer algo sobre o corpo que existia antes.

Quando o "como você está bem!" aparece justamente depois da perda de peso, pode ficar uma mensagem incômoda nas entrelinhas: antes, você não estava.

Não se trata de abolir elogios ou transformar qualquer conversa sobre aparência em terreno proibido. Intimidade, contexto e abertura fazem diferença. Há quem queira falar sobre o próprio corpo, comemorar mudanças, reclamar delas ou pedir uma opinião.

O corpo do outro, porém, não é de domínio público. O problema começa quando essa liberdade é presumida.

Nem toda percepção precisa ser verbalizada. Nem toda mudança precisa ser apontada. E nem todo silêncio significa indiferença. Às vezes, simplesmente ficar quieto é justamente uma forma de cuidado.

Naquele aniversário, havia assunto de sobra. Crianças correndo, gente conversando e cajuzinho suficiente para eu voltar ao que estava fazendo.

Um "oi, como vai?" teria sido um cumprimento bem mais adequado para um dia como aquele.