Cidade mais segura, mas para quem?
Petrópolis é reconhecida pela tranquilidade, pelo bem-estar e pela segurança. Em 2025, foi considerada, pela terceira vez consecutiva, a cidade mais segura do Estado do Rio de Janeiro, segundo o Anuário Cidades Mais Seguras do Brasil. O município registrou índice de 9,3 homicídios por 100 mil habitantes, número inferior à média nacional, de 25,8, e à da Região Sudeste, de 16,6. O resultado foi celebrado pelo poder público, pelas forças de segurança e por parte dos petropolitanos e dos setores da sociedade.
Mas cidade segura para quem? O questionamento surge diante do aumento dos casos de violência contra a mulher em Petrópolis nos últimos anos. Será que, para as mulheres, a cidade é realmente segura? Ao sair à noite, caminhar pela manhã, escolher uma roupa, andar no transporte público lotado — e de péssima qualidade — ou frequentar qualquer outro ambiente, elas estão protegidas? Será que não serão assediadas, ouvirão comentários ofensivos e pejorativos ou, ainda, sofrerão violência dentro da própria casa sem contar com o mínimo de acolhimento?
Segundo dados do Instituto de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro (ISP), 2025 foi o ano com o maior número de registros de violência contra as mulheres em Petrópolis. Foram 3.338 casos, um aumento de 13,5% em comparação com 2024. Entre as tipificações, classificações utilizadas para identificar juridicamente os diferentes tipos de ocorrência, estão violência física, calúnia, difamação, assédio sexual, ameaça, ato obsceno, feminicídio e estupro, entre outras. O número é ainda mais preocupante porque representa o maior registro de toda a série histórica iniciada em 2014.
Ora, a classificação de Petrópolis como a cidade mais segura do Estado não retrata, por si só, a realidade vivida diariamente pelas mulheres petropolitanas. Entre as ocorrências registradas, as violências psicológica, moral e física estão entre aquelas que apresentaram elevação. Como se não bastassem esses dados, outro tema continua em discussão no município: a tão esperada Delegacia de Atendimento à Mulher (DEAM).
Recentemente, a Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro (DPRJ) conseguiu uma decisão favorável na Justiça para que o Estado agilize o processo de instalação de uma DEAM em Petrópolis. O Governo do Estado foi multado por não apresentar, no prazo de 30 dias, um plano para a construção da unidade. A previsão inicial do Executivo estadual era para 2027. Entretanto, existe o risco de perda de recursos do Governo Federal, por meio do Fundo Nacional de Segurança Pública, caso o dinheiro não seja utilizado até o fim deste ano.
A propósito, o município indicou um imóvel para a instalação da DEAM. Então, por qual razão não há agilidade no processo? Enquanto isso, a cidade passou por um caso que chamou a atenção: a morte da fisioterapeuta Priscila Haubrich, de 41 anos. O suspeito é o ex-companheiro. O caso segue em tramitação no Judiciário.
A rede de apoio é mais do que necessária nos casos de violência. Mas existem locais capazes de oferecer acolhimento? A Sala Lilás? O Centro de Referência de Atendimento à Mulher (CRAM)? Qual é a estrutura disponível nesses espaços atualmente? Com o aumento das ocorrências, esses serviços conseguem suportar a demanda? E, para além disso, como esses locais atuam para que a mulher procure ajuda antes que a violência aconteça novamente ou se agrave?
E a sociedade, o que fará diante da dura realidade vivenciada pelas mulheres, não apenas em Petrópolis? Os casos de violência contra a mulher também cresceram no Estado do Rio de Janeiro em 2025, passando de 145.460 para 148.298 registros. Além disso, segundo o ISP, os números mantêm uma tendência de elevação nos últimos seis anos.
Estamos no mês voltado à conscientização sobre o tema: o Agosto Lilás. Mas 31 dias são pouco para avançar em uma pauta tão urgente. A violência contra a mulher, seja qual for sua forma, deve ser combatida por todos. É na base, na infância, que grande parte dos valores de respeito e educação é construída. Por isso, é preciso que esses conceitos sejam ensinados e compartilhados desde cedo.
No que diz respeito às ocorrências, discutir penas mais rigorosas, os critérios legais para a concessão de fiança, ampliar a estrutura de apoio e acolhimento e, acima de tudo, compreender que a mulher é independente e deve ser respeitada como tal podem ser passos importantes para o início dessa árdua caminhada.
Porque uma cidade não pode ser considerada verdadeiramente segura apenas quando seus índices gerais de homicídio são baixos. Segurança também significa poder caminhar, trabalhar, estudar, voltar para casa e viver sem medo de sofrer violência por ser mulher.
A pergunta, portanto, permanece: Petrópolis é a cidade mais segura do Estado. Mas segura para quem?