O Brasil desistiu de colocar seu futuro no papel
Enquanto a China divulga ao mundo seus planos quinquenais e os Estados Unidos formulam documentos estratégicos para preservar sua liderança tecnológica, industrial e militar, o Brasil entra em mais uma eleição nacional praticamente sem discutir um projeto de país. Não há metas compartilhadas de longo prazo, prioridades nacionais claramente definidas ou compromisso político explícito com reformas estruturais capazes de transformar o potencial brasileiro em prosperidade concreta.
Talvez essa seja hoje uma das diferenças mais profundas entre as grandes nações do século XXI: algumas organizam o futuro; outras apenas administram a disputa pelo poder.
É importante compreender que os planos quinquenais chineses já não são planos socialistas clássicos, nos moldes soviéticos do século passado. A China os transformou em plataformas capitalistas de desenvolvimento nacional, voltadas à competitividade, produtividade, inovação e modernização permanente. Planejam infraestrutura, logística, inteligência artificial, semicondutores, urbanização, energia, indústria avançada, educação técnica e ambiente de negócios. Funcionam como mecanismos de coordenação entre Estado, mercado, universidades, bancos, províncias, municípios e empresas privadas.
A China compreendeu algo decisivo: o desenvolvimento não acontece espontaneamente. O atual plano chinês projeta autossuficiência tecnológica, fortalecimento do consumo interno, modernização industrial e liderança global até 2049. Mas existe um elemento ainda mais importante por trás dessa estratégia: a elevação do padrão de vida da população. O grande objetivo chinês não é apenas crescer; é formar uma gigantesca classe média urbana, capaz de sustentar estabilidade social, consumo interno e projeção geopolítica.
Não por acaso, a China retirou cerca de 800 milhões de pessoas da pobreza nas últimas décadas, no maior processo de ascensão social da história contemporânea.
Os Estados Unidos, embora organizados de maneira completamente distinta, também têm no fortalecimento de sua classe média um objetivo central. Grande parte do debate econômico americano atual gira em torno da reindustrialização, da recuperação de cadeias produtivas, da segurança econômica e da tentativa de reconstruir uma prosperidade mais distribuída, depois de décadas de concentração de renda e financeirização excessiva.
Não é coincidência que cerca de 70% do PIB americano venha do consumo das famílias. A força americana sempre esteve associada à capacidade de transformar produtividade em poder de compra, estabilidade e patrimônio para sua classe média.
A Europa do pós-guerra foi construída sobre o mesmo pacto. A Ásia emergente também. Classe média não é consequência automática do crescimento. É projeto nacional. E o Brasil?
O Brasil talvez seja uma das poucas grandes economias do mundo sem um plano nacional minimamente organizado e apresentado à sociedade. Não existe um "Brasil por escrito". Não há um documento que organize metas de curto, médio e longo prazo para produtividade, infraestrutura, educação técnica, segurança pública, ambiente de negócios, inovação tecnológica ou formação de riqueza nacional. O que existe é a disputa permanente pelo poder.
Entraremos novamente em eleições nacionais e estaduais sem praticamente nenhum candidato disposto a apresentar reformas claras, metas objetivas e, sobretudo, disposição explícita para pagar o preço político necessário para reorganizar o país em torno da formação de uma verdadeira classe média brasileira. E talvez esse seja o aspecto mais preocupante de todos: isso passou a ser aceito com naturalidade.
Aceitou-se tacitamente que o Brasil pode continuar atravessando eleições sucessivas discutindo apenas rejeições, escândalos, marketing emocional e destruição biográfica. Discutem-se nomes. Discute-se pouco o Brasil.
Mesmo assim, quando houve direção, o país avançou. O Plano Real reorganizou a economia. As reformas de Fernando Henrique Cardoso estabilizaram a moeda e modernizaram instituições fundamentais. O governo de Michel Temer formulou a última agenda coerente de reorganização estrutural do país, com teto de gastos, reforma trabalhista, governança das estatais e a "Ponte para o Futuro", concebida como plataforma de produtividade, responsabilidade fiscal e retomada da confiança.
Mas o Brasil não conseguiu transformar reformas em continuidade histórica. E isso ocorre justamente quando o país reúne ativos extraordinários: um dos maiores superávits comerciais do planeta, enorme recepção de capital estrangeiro, liderança em energia, agro, alimentos, biodiversidade e um mercado interno continental. O mundo atravessa uma gigantesca transformação geopolítica e tecnológica, capaz de abrir oportunidades inéditas em saúde, educação, inteligência artificial, energia, logística, turismo, infraestrutura e produtividade.
Poucos países estão tão bem posicionados para crescer quanto o Brasil. Ainda assim, o país não consegue converter plenamente esse potencial em investimento produtivo e prosperidade disseminada.
O Brasil constrói milhões de páginas de decretos, normas, conflitos judiciais e burocracias que dificultam investimentos e produtividade. Produz milhões de páginas de brigas personalistas nas redes sociais e nos embates políticos diários. Mas não consegue construir mil páginas de um plano concreto de país.
Talvez a maior tragédia brasileira contemporânea seja justamente essa desistência tácita, não apenas dos governos, mas também de parte das elites políticas, econômicas e intelectuais, que passaram a aceitar como inevitável a ausência de um projeto nacional. Como se o Brasil tivesse desistido de botar seu futuro no papel.
Mas países grandes não sobrevivem indefinidamente sem direção. E a verdadeira pergunta que esta eleição deveria responder é simples: quem terá coragem de dizer ao Brasil, com clareza, quais reformas precisam ser feitas, quais sacrifícios precisam ser enfrentados e qual país queremos construir para que as famílias brasileiras finalmente possam viver em um futuro que esteja escrito, e não apenas improvisado?