Não existe inveja boa

Por Victor Corrêa

Hoje eu senti inveja. Esse sentimento tão malvisto se apossou da minha mente inevitavelmente. Eu rolava meu feed do Instagram quando vi uma cantora famosa se exibindo em uma praia com águas cristalinas. O paraíso era ali. Pelo menos pra mim, enquanto me deparava com aquela imagem que os algoritmos, por alguma razão, decidiram que eu deveria ver.

Sim, é a Inteligência Artificial que escolhe por você. O que você deve e não deve consumir como conteúdo. Eu nunca vi um algoritmo. Ninguém nunca viu. Como ele opera também é um mistério que as big techs, por conveniência, escondem a sete chaves.

Outro dia, ouvindo a conversa de duas amigas na farmácia, escutei o clássico: "Senti uma inveja boa". Elencada entre os sete pecados capitais, a inveja carrega uma condenação antiga. Não existe inveja boa. Inveja é inveja. É difícil, até internamente, admitir que sentimos inveja de algo ou de alguém. Como se não fosse um sentimento inerente ao ser humano.

Voltando à cantora do Instagram, poderia também ser uma atleta, uma atriz, uma influenciadora ou qualquer outra pessoa exibindo uma vida aparentemente perfeita.

Estudos em psicologia sugerem que a inveja pode revelar algo que nos falta, desejamos ou valorizamos. O problema é que as redes sociais multiplicaram as oportunidades para esse sentimento aparecer.

Em poucos minutos, elas conseguem nos fazer rir, sentir inveja, ter raiva, desejar uma viagem, comprar um produto, lembrar de um ex, querer outro corpo ou acreditar que estamos atrasados em relação à vida de todo mundo. Será que o nosso cérebro foi feito para processar tantas emoções em tão pouco tempo?

Existem casais que já estão separados sem perceber.

Quando, na calada da noite, o marido desbloqueia o celular da esposa para ler suas mensagens e ter certeza de que não há uma traição, ele não encontra nada, respira aliviado e vai dormir como se estivesse tudo bem. Não está, é claro.

A traição acontece quando os dois estão jantando e, em vez de conversar, assistem a vídeos bem-humorados de um influenciador. Ou respondem mensagens. Ou apenas rolam a tela para espantar o tédio. Não há uma terceira pessoa. Ainda assim, um deixou de estar com o outro.

Já não esperamos o elevador, o ônibus ou o pedido no restaurante. Esperamos olhando para a tela. Qualquer intervalo virou motivo para pegar o celular.

Você se lembra daquele tempo em que não existia WhatsApp e ainda tínhamos vida depois do trabalho? O expediente acabava quando saíamos dele. Só recomeçava no dia seguinte, quando chegávamos ao escritório e abríamos o e-mail corporativo.

Hoje, o trabalho continua no bolso. A mensagem chega à noite, no fim de semana, durante o almoço ou quando estamos tentando descansar. Mesmo que ninguém exija uma resposta imediata, a simples chegada já ocupa algum espaço na cabeça.

Fazemos isso porque realmente precisamos? Ou para escapar de um diálogo, do tédio, do silêncio, daquele vazio na mente que nos obriga a pensar na vida real, de carne e osso?

O poder público também precisa entrar nessa conversa. E se redes sociais como Instagram e Facebook, da Meta, fossem obrigadas a exibir, dentro do próprio aplicativo, um alerta diário informando quanto tempo o usuário passou ali? Não é proibir. É informar. É proteger.

O Brasil já começou a agir quando o assunto são crianças e adolescentes. Desde 2025, o uso de celulares está restrito nas escolas, inclusive durante o recreio. Um ano depois, 95% dos gestores ouvidos em uma pesquisa nacional perceberam melhora na concentração dos alunos e na convivência presencial.

Proteger crianças e adolescentes é um começo. Mas o adulto também perde horas sem perceber. Abre o celular para responder uma mensagem, vê uma notícia, assiste a um vídeo, passa para o seguinte e, quando se dá conta, uma parte do dia ficou para trás.

A tela não nos prende apenas pelo que oferece. Também nos afasta do que exige presença: uma conversa sem pressa, um silêncio desconfortável, uma relação que precisa de atenção ou uma vida que nem sempre parece tão interessante quanto a dos outros.

A cantora continuou na praia. Eu fechei o Instagram. Não porque a inveja tivesse desaparecido, mas porque percebi que, enquanto acompanhava a vida dela, deixava de viver a minha.