Odisseia

Por Rosina Bezerra de Mello

Antes de assistir ao filme, recomendo a leitura de Odisseia (séc. VIII / VII a.C.), poemas épicos de Homero. A obra é posterior à Ilíada (Homero, VIII a.C.) narrativa sobre o último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles contra Agamêmnon. Odisseia parece ser uma metáfora da jornada da alma humana em busca de autoconhecimento e do retorno ao lar e à verdadeira identidade espiritual.

A narrativa apresenta em cada um dos 24 cantos os desafios enfrentados pelo general Odisseu (Ulisses), mentor da estratégia do Cavalo de Troia e rei de Ítaca. A guerra durou 10 anos e a tentativa de chegar a Ítaca levou mais 10 anos. Quando partiu para a guerra, Ulisses havia deixado esposa, Penélope, e o filho Telêmaco ainda bebê. Telêmaco cresceu sem a presença do pai e para cuidar de sua mãe e preservar o reino precisou amadurecer. Ele partiu numa viagem de conhecimento interior em busca do pai.

Ulisses, durante sua jornada, agiu com inteligência e estratégia para ultrapassar os desafios, pois pouco ou nada lhe valia a força bruta. O único recurso era pensar antes de agir. Firmou na memória e no coração o objetivo de voltar para os seus; alimentou a esperança, manteve-se perseverante, resiliente e paciente. Sofreu perdas e solidão, aceitou as fraquezas dos companheiros que ficaram pelo caminho. Resistiu ao comodismo, à vontade de permanecer, às ilusões, aos desejos imediatos e à soberba. Foi traído pelo próprio orgulho ao revelar quem era após derrotar Polifermo com astúcia. Com isso, despertou a ira de Poseidon. Aprendeu a dominar a si mesmo, subordinou o egoísmo e conquistou a humildade.

Ulisses perdeu tudo, até as roupas do corpo, reduziu-se ao essencial: um véu para proteger o coração. O despir-se de todos os instintos grosseiros e animalescos, simboliza preservar apenas os sentimentos nobres.

Visitou a morte. Cometeu o erro da profanação do gado do deus Sol. O mito ensina que transformar dons espirituais e sagrados em instrumentos mesquinhos e de interesses materiais, mergulha a alma na escuridão. A inteligência e a criatividade não podem servir a instintos inferiores, pois perdem sua luminescência. A redenção só acontece com a purificação do herói. Assim, ele volta à sua verdadeira morada espiritual.

A principal mensagem de Odisseia é a vitória espiritual. A mitologia é usada para tratar das guerras interiores humanas a caminho da verdade essencial. É preciso vencer os monstros internos, as próprias fraquezas, medos, ambições, tentações mundanas, vícios, comodismo...

No início da epopeia, Homero quer preservar sua memória e recordar que a vida humana é uma peregrinação interior moldada por desafios. Os conflitos vivenciados dialogam com leitores de qualquer época, oferecendo lições sobre a existência humana e sua essência espiritual. A memória nos abre a possibilidade de renascimento e de retorno ao reino, onde habita a verdadeira identidade. Ao lado da Ilíada, Odisseia constitui um dos pilares da literatura ocidental.