Cabeça de papelão

Por Rosina Bezerra de Mello

O Homem da Cabeça de Papelão, conto de João do Rio (Paulo Barreto), jornalista e escritor (de quem falei no último artigo), publicado em 1921, é uma sátira e uma crítica social brilhante sobre a hegemonia, a hipocrisia e a deterioração moral. O autor explora o absurdo, a narrativa realista-fantástica e a caricatura para expor uma sociedade adoecida, com seus valores invertidos e degradados, na qual a aparência, o status, as máscaras sociais e a conformidade são mais valorizados e, portanto, praticados, do que a autenticidade, a honestidade, a integridade e a ética. O lema é: você não precisa ser, é necessário parecer!

A trama acompanha a vida de Antenor, um homem honesto, íntegro, com valores pessoais éticos, desde criança, sofrendo discriminações, deboches, preconceitos sociais, e até dentro da própria família, por sempre dizer a verdade, seguir as leis e agir corretamente. Sofre diferentes situações de abuso psicológico em casa, na escola, no trabalho, no amor... é visto como um cabeça estragada. Ele resistiu o quanto pôde. Começou a duvidar de sua própria sanidade: estariam os outros certos e ele o errado? Ridicularizado, solitário e exausto de ser rejeitado, ele substituiu sua cabeça humana perfeita por uma de papelão, produzida em linha de montagem, de péssima qualidade e destituída de pensamento crítico, valores éticos, ou sentimentos reais. Ao vestir a nova cabeça, ele passou a ser amado e bem-sucedido, adotando atitudes soberbas, ambiciosas, hipócritas, corrompidas e superficiais, exatamente como os demais à sua volta.

A narrativa se passa no fictício País do Sol, uma óbvia referência à sociedade carioca e ao fiel retrato do brasileiro da época. Ao trocar sua cabeça por uma de papelão, Antenor torna-se igual a todos os outros e exatamente aquilo que o meio social esperava dele. A obra usa a linguagem com ironia fina e crítica afiada e ácida direcionada aos comportamentos comuns adotados pelas pessoas sem escrúpulos com objetivo de ascenderem socialmente.

O autor questiona, de modo implícito, se vale a pena abrir mão da própria identidade para ser aceito e ceder a um falso sentimento de pertença. Ou ainda, vale a pena ceder à imposição de uma hegemonia cultural (imposição de um modo de agir e pensar de um grupo sobre outro) que despersonaliza e até desumaniza? Vale a pena tornar-se marionete de pessoas sem caráter ou escravo da vontade alheia? Os aplausos seduzem a alma.

João do Rio era um exímio observador do cotidiano urbano brasileiro. O conto foi escrito há mais de um século e, no entanto, é atualíssimo. A obra dialoga com as pressões contemporâneas as quais exigem o alcance de aprovação, de like nas redes sociais; a busca por seguidores; impõem o medo do cancelamento; cobram a superficialidade e o imediatismo na vida real e nos ambientes virtuais e conduz ao conformismo político. A narrativa denuncia as mazelas humanas.

E João do Rio é genial na crítica com humor! A leitura vale a reflexão.