O invasor
A magistral obra do jornalista, escritor e roteirista de cinema Marçal Aquino "O invasor" (2002, relançado em 2011) alcançou a excelência dos romances policiais com suspense. Marçal é autor dos livros "Faroestes" (2001) e "Cabeça a prêmio" (2003) e o impressionante "Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios" (2005). Em todos esses, o escritor constrói a narrativa com uma linguagem, ao mesmo tempo, dura, seca, simples e objetiva. Essa objetividade do texto produz um andamento vertiginoso e veloz no ritmo da prosa e desmascara as reais intenções que movem o ser humano nos seus atos mais sórdidos, próprios de uma trama policial intensa. O leitor é convidado a participar da investigação, pois há sempre uma camada intencional mais oculta a ser desvendada.
A narrativa apresenta uma teia de intrigas movidas por inveja, desprezo, traição, corrupção, assassinato, mentira, violência, dissimulação, brutalidade, melancolia e até amor verdadeiro, como o próprio livro se apresenta. A trama se desenvolve ao redor de Anísio, matador de aluguel, contratado por Ivan com apoio de Alaor, "amigos" e sócios de Estevão, a vítima, que, diferente de Ivan e Alaor, não aceitava selar contratos superfaturados com Brasília. Ele era honesto, íntegro. Os sócios o viam como um obstáculo à ambição desmedida e ao "progresso" da empresa.
O crime foi cometido a contento e com quase nenhum rastro. Silenciosamente, Anísio começa a ocupar espaços inimagináveis na empresa, na vida dos sócios contratantes e na vida da filha do Estevão, agora sozinha, pois sua mãe também fora assassinada. O arrependimento de Ivan chegou tarde. E aos poucos ele se deixou chantagear por Alaor, estabelecendo com ele uma relação de dependência. Anísio e Alaor realizam movimentos cautelosos, incisivos e penetrantes, aparecendo de forma mais frequente na vida do sócio vivo, Ivan. Anísio é o personagem que liga dois mundo: o da periferia, representada pelo matador de aluguel e a vida da alta sociedade, simbolizada pelo requinte de Estevão. O comportamento impositivo de Anísio, cruzando de um mundo a outro, expressa o modo como as relações contratuais comungam entre si independente da classe social, pois o que determina os comportamentos criminosos são o caráter e as ambições. Ivan, o sócio mais pobre, queria o controle da empresa e tornou-se uma marionete na mão de Alaor, o corrupto. Alaor usa a empresa e Anísio para conseguir o que deseja. O empecilho ao "progresso", aos negócios escusos, agora é Ivan. A obra mostra a rede estruturada em uma sucessão de crimes: um crime para garantir outro. É o retrato fiel e atual de sociedades muito corrompidas.
Marçal Aquino gradualmente revela com frieza e realismo o aspecto apodrecido do ser humano, em seus atos, pensamentos e decisões. E consequências. "O invasor" é o espelho do que lemos e ouvimos nos noticiários policiais. Mostra como se iniciam algumas barbáries, onde se cruzam os desejos infames e as histórias pessoais.