Um povo corno?
Existe algo mais desconfortável na política brasileira do que admitir que somos enganados repetidamente. É reconhecer que, em muitos casos, sabemos disso e, ainda assim, escolhemos mal. O problema não é falta de informação ou simples manipulação. Há um padrão mais profundo, quase um pacto silencioso, em que o eleitor aceita resultados ruins como parte do jogo. A indignação aparece, mas não reorganiza o comportamento. E isso tem menos a ver com ignorância do que com o ambiente em que essas escolhas são feitas.
O conceito de anomia ajuda a iluminar esse quadro. Não se trata da ausência de regras, mas de um estado em que elas perdem capacidade de orientar a ação. As instituições continuam produzindo normas, discursos e promessas, mas esses elementos deixam de se conectar com a experiência concreta. A lei existe, mas não garante previsibilidade. A moral é invocada, mas aplicada de forma errática. O discurso político, embebido em doses cavalares de óleo de peroba, promete futuros brilhantes sem quaisquer compromissos com expectativas reais. Nesse ambiente, cidadãos mantêm seus critérios morais no plano do discurso, mas passam a utilizá-los em baixa intensidade, como quem já não acredita plenamente na eficácia do próprio julgamento.
A anomia explica esse descolamento entre metas e meios. A sociedade continua defendendo objetivos como desenvolvimento, justiça e eficiência, mas os caminhos para alcançá-los parecem bloqueados, distorcidos ou ineficazes, de modo que o comportamento, então, se adapta. Não porque as pessoas deixaram de distinguir o certo do errado, mas porque concluem que seguir estritamente as regras produz poucos resultados. Forma-se uma zona cinzenta em que o desvio deixa de ser exceção para se tornar um movimento funcional.
Nessas condições, instala-se uma normalidade anômica. O eleitor reconhece falhas nos candidatos, mas já não encontra meios confiáveis para transformar esse reconhecimento em escolhas melhores. O juízo moral perde força prática. A cada eleição, absorve-se o absurdo, e o escândalo deixa de representar ruptura para se tornar variável esperada no circo em que se converteu o espaço público. Isso ajuda a explicar por que figuras claramente problemáticas continuam eleitoralmente viáveis. Não porque convençam plenamente, mas porque operam em um sistema de expectativas rebaixadas. O eleitor deixa de buscar o melhor possível e passa a procurar aquilo que parece funcionar em um arranjo percebido como inevitavelmente disfuncional.
Essa dinâmica altera a relação com o poder. O político já não precisa ser exemplar, mas apenas tolerável. Promessas descumpridas perdem peso porque, em um ambiente considerado estruturalmente imperfeito, sobreviver politicamente passa a valer mais do que entregar resultados. Aos poucos, o desajuste é normalizado. A incoerência deixa de ser percebida como falha grave e o cinismo político passa a integrar a linguagem cotidiana.
Os eleitores, longe de serem apenas vítimas, também operam nessa lógica adaptativa. Reclamam, ironizam e criticam, mas raramente alteram seu padrão de escolha. A crítica encontra fundamento não como julgamento moral simplista, mas como constatação de um comportamento coletivo reiterado. Quando escolhas frustrantes se repetem por sucessivos ciclos eleitorais, já não se trata de erros ocasionais, mas de um sistema disfuncional, no qual a própria ideia de transformação perde totalmente a credibilidade.
O mais inquietante é que esse sistema não depende de ocultação. As falhas são públicas, os problemas, conhecidos, e os desvios, discutidos sem maior constrangimento. Ainda assim, a informação não reorganiza a ação. A anomia enfraquece a capacidade de converter percepção em decisão eficaz, fazendo com que o voto deixe de ser instrumento de transformação para se tornar mero mecanismo de adaptação.
Nesse contexto, a metáfora do corno deixa de ser apenas um insulto e adquire valor analítico - ainda que imperfeito -, ao descrever a manutenção consciente de relações que já não funcionam. Note-se, contudo, que essa pecha individualiza um fenômeno que é, de fato, estrutural. O problema não é apenas a fraqueza de quem permanece, mas um ambiente que reduz a capacidade de ruptura. Enquanto essas condições persistirem, a alternância de nomes e partidos produzirá apenas variações marginais. Afinal, o problema político contemporâneo talvez não seja apenas o ato de escolher mal, mas a perda das condições necessárias para escolher bem.