A dor que pode esperar
Entre o arroz, o feijão e o antidepressivo, qual será a prioridade?
Para muitas famílias, essa escolha aparece quando a consulta finalmente acontece, a receita é entregue e o remédio não está disponível na farmácia pública.
Desde a pandemia, o Brasil aprendeu a falar mais sobre saúde mental. O sofrimento psíquico entrou na conversa cotidiana, os transtornos mentais passaram a ser ditos com menos vergonha e políticos, empresas e instituições aprenderam a repetir palavras como acolhimento, cuidado e bem-estar.
Mas o sofrimento é mais antigo que o vocabulário usado para descrevê-lo. As pessoas sofrem há muito tempo, muitas em silêncio. E silêncio nunca significou ausência de dor.
O problema é que falar mais não significa cuidar melhor. A saúde mental entrou no discurso público, mas ainda encontra portas estreitas quando precisa virar atendimento, consulta, medicamento, acompanhamento e continuidade.
O SUS oferece atendimento psiquiátrico gratuito. Mas, na prática, oferecer não é apenas existir no desenho da política pública. É ser conhecido, acessível, contínuo e possível.
Pesquisa da Associação Brasileira de Psiquiatria mostrou que apenas 31,6% dos brasileiros sabem que podem buscar atendimento com psiquiatra pelo SUS. Em algumas cidades, quem sabe e procura ainda enfrenta fila de até um ano e meio.
O dado expõe uma contradição: o serviço existe, mas boa parte da população sequer sabe que pode procurá-lo. E, quando sabe, nem sempre encontra vaga, tempo de consulta, profissional ou medicamento.
Profissionais que entrevistei para esta coluna relatam a mesma dificuldade: a rede pública não consegue absorver a demanda. "Por mais boa vontade que eu tenha, é impossível fechar um diagnóstico em uma consulta de dez minutos", disse Joana, psiquiatra que atende em um instituto federal no Rio de Janeiro.
Bruno, psicólogo que atende no SUS e na iniciativa privada, trabalha com pacientes em recuperação de abuso de substâncias. Para ele, o problema começa antes da consulta. "A pessoa chega quando já não aguenta mais. Não é falta de vontade de buscar ajuda. É que o caminho até o atendimento é longo demais para quem já está no limite."
Não é apenas o tempo curto. Nem todo paciente tem dinheiro para comprar o remédio quando ele não está disponível na rede. A escolha, então, deixa de ser clínica e vira financeira.
Há ainda uma diferença antiga na forma como o país valida a dor. A fratura exposta tem urgência. A dor que não aparece no raio-x precisa se explicar.
Essa hierarquia aparece também nas escolhas de política pública. O governo federal lançou o Agora Tem Especialistas, programa bilionário para reduzir filas de consultas, exames e cirurgias no SUS. Nas informações oficiais, as áreas prioritárias iniciais são oncologia, ginecologia, cardiologia, ortopedia, oftalmologia e otorrinolaringologia. Psiquiatria não aparece na lista.
Não se trata de negar a urgência das outras especialidades. Quem espera por diagnóstico de câncer, cirurgia ortopédica, atendimento cardiológico ou exame oftalmológico também não pode esperar. Mas a ausência da saúde mental entre as prioridades iniciais revela a distância entre o discurso e a decisão.
Dado não falta. Segundo a Organização Mundial da Saúde, o Brasil tem a maior prevalência de depressão da América Latina e a segunda maior das Américas. Ainda assim, quando o país define prioridades para reduzir filas de especialistas, a saúde mental segue fora do primeiro plano.
Os CAPS se consolidaram a partir da Reforma Psiquiátrica brasileira, uma conquista indiscutível diante da violência manicomial. Justamente por isso, precisam funcionar de acordo com os melhores protocolos. Ir a um CAPS em crise de pânico e não ter acesso a avaliação psiquiátrica ou psicológica não é apenas frustrante. É também um sinal de que, entre o desenho da política pública e a experiência concreta do paciente, existe um vazio.
O SUS é uma das maiores conquistas da população brasileira. Defendê-lo com seriedade significa também dizer o que ainda falha. O aplauso sem crítica não resolve filas, não garante tratamento, não forma especialistas. Não basta celebrá-lo como princípio quando, por dentro, o que se encontra são equipes esgotadas, profissionais desesperançados e farmácias sem medicação.
A saúde mental não se resolve apenas com campanha, laço colorido, palestra em empresa ou frase de incentivo. Também não avança com uma consulta apressada e uma receita que talvez não encontre o remédio na prateleira.
Há quem espere meses para chegar até aqui. Consiga a consulta. Receba a receita. Vá até a farmácia pública. E descubra que o medicamento não está disponível.
Pedir ajuda é importante. Mas pedir ajuda não basta quando o cuidado não chega.
*Jornalista, mestre e doutorando em Gestão e Políticas Públicas pela Fundação Getulio Vargas