Visão de uma professora: como a IA já está presente nas salas de aula

Por Nara Fernandes de Oliveira*

A cena já se tornou comum em muitas salas de aula: "Professora, posso usar o ChatGPT?". Nos últimos anos, essa pergunta passou a fazer parte do cotidiano escolar. A cada geração surgem novos elementos capazes de disputar a atenção dos estudantes, mas o fenômeno atual é particularmente instigante, pois reflete o acesso massificado às tecnologias digitais e, especialmente, à inteligência artificial generativa.

Assim que essas tecnologias chagaram ao público, o ambiente escolar foi imediatamente impactado. Não se trata apenas de uma nova forma de pesquisar conteúdos, mas de uma mudança significativa na própria dinâmica de produção do conhecimento. Para nós, professores, estabelece-se um novo paradigma: desenvolver habilidades para a aplicação pedagógica da IA ou permitir que ela se torne mais uma dificuldade no processo educativo.

Já diz o ditado popular: "se não pode com eles, junte-se a eles". Na educação, essa ideia precisa ser entendida como a disposição para revisitar práticas, questionar modelos tradicionais e abrir espaço para novas possibilidades pedagógicas. Esse movimento contribui para o desenvolvimento profissional docente e permite dialogar com uma geração que já nasce inserida na cultura digital, acostumada à rapidez das informações e à interação constante com tecnologias.

A própria Base Nacional Comum Curricular (BNCC) reconhece essa realidade ao incluir a Cultura Digital como uma de suas competências gerais, reforçando a necessidade de formar seres capazes de atuar de maneira crítica e responsável no mundo contemporâneo. Soma-se a isso a BNCC Computação, cuja implementação avança nas redes de ensino e fortalece o compromisso com o desenvolvimento da fluência digital.

É recorrente a crítica de que a escola não acompanha a evolução tecnológica. Ao longo dos meus quase 25 anos de magistério, percebo que essa discussão exige também uma reflexão interna. Embora os investimentos públicos nem sempre avancem na velocidade desejada, cabe perguntarmos: estamos aproveitando os recursos já disponíveis? Buscamos as formações gratuitas ofertadas? Procuramos compreender as novas normativas educacionais e suas atualizações? A incorporação das tecnologias não depende unicamente de infraestrutura, mas também de iniciativa, curiosidade profissional e disposição para aprender continuamente. Planejar aulas que contemplem competências digitais e midiáticas exige um deslocamento importante do papel docente. Gradualmente, deixamos de ocupar somente o lugar de transmissores de conteúdos para assumir, de forma mais evidente, a função de mediadores da construção do conhecimento. Nesse contexto, a inteligência artificial tem a potencialidade de atuar como apoio ao planejamento e como fonte de inspiração pedagógica. Em minha prática, utilizo comandos detalhados para estruturar planos de aula, descrevendo o público-alvo, a faixa etária, a carga horária, as habilidades a serem desenvolvidas e o objeto de conhecimento trabalhado.

Organizo o planejamento a partir dos três momentos da Gestão da Aprendizagem — Problematização, Desenvolvimento e Sistematização — e solicito sugestões de atividades e avaliações. As respostas geradas raramente são definitivas: precisam ser revistas, ajustadas e refinadas. Quando o resultado não atende às expectativas, reformulo o comando e continuo o diálogo, transformando o emprego da IA em um exercício criativo e reflexivo.

Com essa demanda emergente, plataformas educacionais começaram a integrar recursos de inteligência artificial às suas soluções, ampliando o acesso em escolas municipais e estaduais do Rio de Janeiro. Ainda existem desafios importantes, especialmente relacionados à conectividade, mas em contextos onde há investimento tecnológico e organização pedagógica, a experiência tem se mostrado positiva.

No Colégio Estadual Barão de Tefé, uma escola pública com vocação empreendedora, utilizando tablets e a plataforma ProfessorIA, com a assistente de IA Maria de Fátima, desenvolvi, em 2025, o tema "Contos de Cavalaria" com turmas do 1º ano do Ensino Médio. O objetivo era apresentar aos alunos obras como Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda, Dom Quixote e Robin Hood, e dar-lhes instrumentos para que compreendessem a estrutura do gênero para posteriormente produzir narrativas visuais. Na ausência dos livros digitais, ensinei aos estudantes como elaborar prompts para explorar as histórias, produzir sínteses e avançar nas atividades propostas. A experiência demonstrou que aprender a formular boas perguntas também é crucial.

Com as turmas do 3º ano, a inteligência artificial foi incorporada a um percurso de alfabetização científica dentro do componente Projeto de Pesquisa. O foco permaneceu no rigor metodológico: primeiro o "saber fazer", depois a ferramenta. Os alunos aprenderam a criar prompts para localizar referenciais teóricos, exigir links e fontes confiáveis e revisar seus próprios textos, sempre preservando a autoria. Ficou evidente que a IA não substitui o pensamento científico, mas é capaz de apoiar sua construção quando utilizada com critérios pedagógicos claros.

Trabalhar com inteligência artificial no cotidiano escolar, portanto, significa atuar com intencionalidade pedagógica. Não se trata de permitir ou não o uso da tecnologia, mas de criar situações de aprendizagem em que o dispositivo esteja a serviço do pensamento crítico — e não o contrário. Integrar-se à chamada Educação 4.0 é transformar a pergunta inicial do estudante em um convite ao aprendizado conjunto: aprender, professores e alunos, a utilizar tais possibilidades de maneira ética, responsável e consciente. Dessa forma, a IA não serve apenas para otimizar tempo ou automatizar tarefas; ela pode ampliar possibilidades de aprendizagem, estimular a criatividade e favorecer práticas pedagógicas mais personalizadas.

Para ensinar a utilização adequada dessas tecnologias, é necessário que o próprio professor desenvolva suas competências digitais, compreendendo como elaborar prompts, analisar criticamente as respostas geradas e discutir limites, riscos e potencialidades. Ao assumir essa postura, reafirmamos nosso papel como mediadores do processo ensino-aprendizagem. O protagonismo continua sendo humano. A tecnologia permanece no lugar que lhe cabe: o de ferramenta que apoia, inspira e amplia a jornada educativa, sem substituir a essência da educação, que é o encontro entre pessoas que aprendem juntas.

*Educadora há 24 anos e atua como coordenadora pedagógica no município de Angra dos Reis e como professora na rede estadual do Rio de Janeiro.