"No particular está contido o universal"

Por Rosina Bezerra de Mello

A frase título que apresenta este artigo revela a profundidade do pensamento de James Augustine Aloysius Joyce (1882-1941), contista, poeta e romancista modernista irlandês, é um dos mais importantes do século XX, pois sua obra consta entre as 100 que você deveria ler enquanto vive. As mais famosas são: o volume de contos Dublinenses (1914) e os romances Retrato do Artista Quando Jovem (1916), Ulisses (1922) e Finnegans Wake (1939).

Suas obras eram ambientadas em Dublin, capital da Irlanda, como tentativa de chegar ao coração da sociedade irlandesa de sua época. Seu estilo caracteriza-se por um domínio impressionante da linguagem e pela utilização de formas literárias inovadoras, associadas à criação de personagens portadores de profunda humanidade.

Original de família "classe média", conheceu a pobreza devido ao alcoolismo do pai. Sua educação formal ocorreu em instituições católicas de renome e graduou-se em Línguas Modernas, como Inglês, Francês e Italiano. Morou na Suíça, França e Itália. Em 1904 conheceu Nora Barnacle, companheira de toda a vida, com quem teve 3 filhos.

A principal distinção de sua obra consiste no modo como trabalhou a linguagem e quebrou os padrões narrativos estabelecidos. Para ele, a linguagem era um organismo vivo e maleável, portanto, manipulável. Utilizou-a de maneira antiacadêmica, fragmentada e experimental. Transformava qualquer texto em experiência sensorial e cognitiva. A essência da sua escrita tinha como suporte três pilares: 1) Fluxo de consciência: predominante em "Retrato do Artista Quando Jovem" e "Ulisses". Neles, Joyce reproduz o pensamento humano livre, caótico, sem barreiras, ou freios e sem transições lógicas. Pensar não exige lógica. Algumas vezes ignorava a pontuação convencional para mergulhar profundamente na mente e nas emoções das personagens; 2) Neologismos e palavras-valise (junção do início de uma palavra com o final de outra. A palavra resultante absorve o significado de ambos os termos originais): Em Finnegans Wake, a experimentação chega ao extremo, misturando dezenas de idiomas (hibridismo) e fundindo palavras para criar termos oníricos, dotados de múltiplos significados simultâneos (polissemia); 3) A linguagem como matéria física: Para ele, as palavras tinham peso, som e textura. Ele não hesitava em moldá-las, distorcê-las ou elevá-las à condição de música e sintoma, refletindo a realidade corpórea e fragmentada do homem moderno. A evolução da sua escrita pode ser observada desde a simplicidade clara e rigorosa de Dublinenses (Gente de Dublin) até o extremo experimentalismo poliglota de suas últimas obras.

O conjunto da obra foi submetido, e ainda é, a inúmeras pesquisas acadêmicas de todos os tipos. Sua escrita influenciou autores diversos como Beckett, Jorge Luiz Borges, Flann O'Brien, Máirtín Ó Cadhain, Salman Rushdie, Thomas Pynchon, William Burroughs e outros.

No próximo artigo, comentarei Ulisses, seu romance mais famoso.

Rosina Bezerra de Mello é doutora em estudos literários e professora