A urgência climática bate à porta das periferias: a vida no Brasil além do asfalto

Por Tainá de Paula*

O Dia Mundial do Meio Ambiente nos convoca a uma reflexão muito mais profunda do que as tradicionais promessas institucionais e discursos corporativos sobre sustentabilidade. Enquanto fóruns globais projetam modelos para as próximas décadas, a realidade prática nos impõe um confronto imediato com o termômetro. Os últimos anos consolidaram recordes históricos de temperatura no país, transformando ondas de calor contínuas e sensações térmicas sufocantes em um severo e permanente "novo normal".

Essa escalada climática, no entanto, não distribui seus impactos de forma democrática. Ela expõe a face mais cruel da desigualdade urbana brasileira: as ilhas de calor e a asfixia climática que penalizam os corpos e os territórios mais vulneráveis do nosso tecido social. De Norte a Sul, as áreas periféricas, favelas e comunidades tradicionais sofrem de forma desproporcional os efeitos do asfalto impermeabilizado, do super adensamento habitacional e, fundamentalmente, da escassez severa de áreas verdes e arborização.

Nesses territórios, divididos por milhões de trabalhadores que compartilham moradias precárias e uma alta densidade urbana, o ambiente construído impõe barreiras que bloqueiam a circulação do ar e agravam o estresse térmico. Quando o calor severo atinge os centros urbanos, o asfalto e as coberturas de zinco transformam as casas em verdadeiras estufas. É a comprovação empírica de um fato incontornável: a radiação solar atinge a todos, mas o adoecimento e o desgaste gerados pelo colapso climático são sentidos com muito mais violência nas margens da sociedade.

Essa assimetria no planejamento e na distribuição de recursos ambientais configura o que a literatura e os movimentos sociais definem como injustiça climática. Falamos da naturalização da precariedade, em que territórios predominantemente habitados por populações negras, indígenas e de baixa renda absorvem os piores ônus do desenvolvimento: a escassez de saneamento básico, a intermitência crônica no abastecimento de água e a exposição direta a extremos de temperatura ou a desastres hidrológicos. O solo urbano nacional reflete escolhas políticas históricas que segregaram o direito à saúde e ao bem-estar.

Por essa razão, celebrar o meio ambiente em junho exige ir muito além do diagnóstico das estatísticas. Exige a consolidação de políticas públicas voltadas para uma infraestrutura verde descentralizada e focada na justiça social. Investir na ampliação da cobertura vegetal e no restabelecimento de biomas degradados nas periferias não é uma intervenção estética ou paisagística; trata-se de uma urgência de saúde pública capaz de mitigar a mortalidade urbana ligada ao calor e restaurar o equilíbrio psicossocial das comunidades.

O Brasil já possui soluções locais inovadoras e plenamente escaláveis para o Sul Global. O uso de tecnologia de ponta, como o mapeamento e a semeadura por drones em áreas de difícil acesso nos mutirões de reflorestamento, demonstra como a preservação pode avançar em sintonia com a geografia das nossas encostas e mananciais. Da mesma forma, iniciativas consagradas de agricultura urbana comunitária e o fortalecimento das cooperativas de catadores evidenciam que a transição ecológica caminha de mãos dadas com a geração de emprego, a economia circular e a soberania alimentar nas favelas e bairros periféricos.

A construção de um futuro sustentável depende diretamente de quem governa e de como priorizamos a vida no orçamento público. Não haverá transição ecológica legítima sem a inclusão real dos invisibilizados e sem o enfrentamento direto das carências estruturais das nossas regiões metropolitanas e interiores. Que este Dia Mundial do Meio Ambiente sirva para demarcar que o tempo de agir não é o amanhã abstrato, mas o presente imediato. Proteger o meio ambiente é, antes de tudo, garantir o direito à vida de quem está na linha de frente da crise climática.

*Tainá de Paula é arquiteta, urbanista, especialista em Cidades e vereadora da cidade do Rio de Janeiro