A divina comédia

Por Rosina Bezerra de Mello

De autoria de Dante Alighieri e escrita entre 1307 e 1321, "A Divina Comédia", originalmente "Comédia", é uma alegoria didática, poética, épica e teológica sobre a doutrina católica e a busca da humanidade por redenção. O adjetivo "Divina" foi atribuído por Boccaccio por volta de 1357. Contudo, só na edição de 1555, com curadoria de Ludovico Dolce e impressa por Gabriele Giolito de' Ferrari, foi intitulada "A Divina Comédia" pela 1ª vez.

O poema épico mostra Dante peregrinando pelo Inferno, Purgatório e Paraíso. É escrito em versos hendecassílabos (11 sílabas poéticas) no dialeto vulgar florentino que, mais tarde, tornou-se o idioma italiano. Dividido em 3 "cânticos", compostos por 33 cantos (exceto o Inferno, com 34), formados por 115 a 160 versos, é estruturado em tercetos.

A jornada de Dante tem início quando ele se vê perdido na "selva escura", metáfora para a confusão espiritual do pecador. Ele tenta encontrar a luz, mas é impedido por 3 feras: a pantera (luxúria), o leão (soberba) e a loba (ganância). Dante é resgatado pelo espírito do poeta romano Virgílio (autor de Eneida), símbolo da razão e do conhecimento, enviado por Beatriz, personificação da graça divina e da fé.

No 1º cântico, Dante e Virgílio entram no Inferno por um funil subterrâneo com 9 níveis circulares. À medida que descem, os pecados e punições tornam-se mais graves e severas. O 1º nível: Abriga pagãos virtuosos e os não batizados; 2º ao 5º: pecados de Luxúria, Gula, Ganância e Ira; 6º: Hereges; 7º: Violentos contra o próximo, contra si e contra Deus; 8º: Fraude (corrupção, roubo, falsificação); 9º: Traidores de parentes, pátria, convidados e benfeitores. Na profundeza central do Inferno, Dante vê Lúcifer preso e mastigando os 3 maiores traidores da história: Judas Iscariotes, Brutus e Cássio.

Depois do Inferno, Dante e Virgílio chegam ao Purgatório, lugar de esperança. Nele, as almas são purificadas antes de ascenderem ao Paraíso. Após o ante purgatório, há 7 terraços correspondentes aos pecados capitais: soberba, inveja, ira, preguiça, avareza, gula e luxúria. No caminho, eles testemunham o processo de arrependimento e limpeza das almas.

Chegando à porta do Jardim do Éden, como a razão humana não compreende os mistérios divinos, Beatriz assume a condução de Dante ao Paraíso, última etapa da peregrinação. Dante ascende às 9 esferas celestes concêntricas, conforme a cosmologia medieval. Durante a ascensão, ele conversa com santos, mártires e almas abençoadas sobre questões teológicas até chegar ao Empíreo, verdadeira morada de Deus. No clímax, guiado por São Bernardo, Dante contempla a Santíssima Trindade e atinge a iluminação, sentindo o amor divino que move o universo.

"A Divina Comédia" é testemunho do pensamento medieval. Foi sucesso extraordinário e imediato, difundida e copiada em inúmeros manuscritos (com glosas e comentários) até o advento da imprensa. É, sem dúvida, uma das maiores e belíssimas obras-primas da humanidade.

Rosina Bezerra de Mello é doutora em estudos literários e professora.