Os Irmãos Karamázov

Por Rosina Bezerra de Mello

"Os Irmãos Karamázov" (1879) é a obra-prima de Fiódor Dostoiévski. O romance traz os conflitos entre o pai bufão, devasso, egoísta e cruel, que enriqueceu com os casamentos, e os filhos negligenciados por ele. O narrador, onipresente e onisciente, dialoga com o leitor, além de fazer inferências sobre o pensar das personagens.

O centro da trama é o assassinato do pai, Fiódor Karamázov. O crime é mal investigado com julgamento trágico. Isso provoca profundo debate filosófico sobre fé, razão, moralidade e o livre-arbítrio entre os três filhos legítimos. Cada um dos filhos representa um aspecto da sociedade russa à época. Dostoiévski acreditava que a essência humana transcende a realidade superficial e a condição econômica-social. A população russa encontrava-se excessivamente endividada, em plena vulnerabilidade social, com conflitos internos por posse da terra, com o sistema feudal e com o capital. Por isso, a obra propõe questionamentos existencialistas, tais como a motivação para o suicídio, as causas do orgulho ferido, a destruição dos valores familiares, o renascimento espiritual através do sofrimento, a rejeição do Ocidente e da afirmação da ortodoxia russa e o czarismo.

Dimitri, filho mais velho do 1º casamento, após a morte da mãe ficou sob os cuidados de um criado e depois de um parente da mãe; quando cresceu, tornou-se um homem impulsivo, movido por paixões mundanas, indisciplinado, rebelde, boêmio, descontrolado financeiramente. Ao reivindicar a herança da mãe, foi enganado pelo pai, com quem também disputava o amor de uma jovem.

Ivan, filho do 2º casamento, tornou-se ateu. Era intelectual, racionalista e cético. O mal no mundo e suas próprias ideias niilistas o atormentavam, e inspiram indiretamente o crime. Aliocha, caçula, é considerado o "herói". Ele é noviço num mosteiro, símbolo da pureza, da fé e do amor cristão. Tenta salvar a família de sua própria destruição. Questiona as condições de trabalho e expõe sua insatisfação com a injustiça social. Ele culpa os pecados pessoais pela a degradação social, indicando como solução os milagres por meio da santificação. O quarto irmão, filho ilegítimo, Pavel Smerdiakóv, tem temperamento oscilante entre a maldade pura e a servidão rastejante. Cuidado pelos servos da casa, tornou-se um deles. Sofria de epilepsia. Ressentido, é o verdadeiro assassino, motivado pelas ideias niilistas de Ivan: se Deus não existe, tudo é permitido.

O romance é repleto de enigmas em um jogo de palavras, discussões e dúvidas. O autor discute o embrutecimento das relações humanas, o domínio de um sobre outro, a pobreza, a corrupção moral e social. Joga luz sobre as fragilidades dos laços afetivos os quais deveriam ser mais profundos. Sua argumentação e descrição da realidade podem gerar constrangimento devido à crueza e dimensão. Na pessoa de Aliocha, a obra pode fortalecer a fé, os laços familiares e amorosos, a capacidade de tratar estranhos com humanidade, respeito e afeto.

Rosina Bezerra de Mello é doutora em estudos literários e professora