Anabolizantes e coração: uso de hormônios pode aumentar risco de arritmias e morte súbita

Por Dr. Aloisio Barbosa Filho

Quando se fala em anabolizantes, a associação mais comum costuma ser o ganho acelerado de massa muscular, aumento de desempenho físico e recuperação mais rápida após os treinos. No entanto, o que muitas pessoas esquecem é que o coração também é um músculo e pode sofrer consequências graves com o uso dessas substâncias.

A morte do fisiculturista Gabriel Ganley, de 22 anos, trouxe novamente atenção para os riscos cardiovasculares associados aos esteroides anabolizantes. O laudo apontou cardiomiopatia hipertrófica como causa da morte súbita, uma condição caracterizada pelo espessamento do músculo cardíaco, que dificulta o funcionamento adequado do coração.

Diferente dos músculos esqueléticos, o coração não foi feito para crescer de maneira desorganizada. O uso de anabolizantes pode estimular um aumento exagerado da musculatura cardíaca, tornando as paredes do coração mais espessas e reduzindo o espaço interno responsável por receber e bombear o sangue.

Esse processo faz com que o coração trabalhe com mais dificuldade, principalmente durante esforços físicos intensos. Com o tempo, o músculo cardíaco pode se tornar mais rígido, comprometendo a circulação sanguínea e aumentando o risco de insuficiência cardíaca, arritmias graves e morte súbita.

Outro fator preocupante é que o crescimento acelerado do coração nem sempre é acompanhado pela rede de vasos sanguíneos responsável por levar oxigênio ao músculo cardíaco. Isso pode provocar pequenas lesões e áreas de fibrose, que funcionam como cicatrizes dentro do coração.

Essas cicatrizes alteram a condução elétrica cardíaca e favorecem o surgimento de arritmias potencialmente fatais, como taquicardia ventricular e fibrilação ventricular. Nessas situações, o coração perde a capacidade de bater de forma organizada e deixa de bombear sangue adequadamente para o cérebro e os demais órgãos.

Muitas vezes, essas alterações acontecem de forma silenciosa. A pessoa continua treinando, ganhando massa muscular e mantendo rotina intensa sem perceber que o coração já apresenta mudanças estruturais importantes. Em alguns casos, o primeiro sinal do problema pode ser justamente uma parada cardiorrespiratória durante atividade física.

Os sintomas, quando aparecem, podem incluir falta de ar, dor no peito, palpitações, tontura, desmaios e cansaço excessivo. Jovens atletas que apresentam episódios de perda de consciência durante exercícios físicos precisam de avaliação médica imediata.

Além da cardiomiopatia hipertrófica, os anabolizantes também podem elevar a pressão arterial, aumentar o colesterol ruim, favorecer tromboses, infartos e provocar danos à circulação do coração. O risco cardiovascular depende de fatores como genética, tempo de uso, doses utilizadas, intensidade dos treinos e condições pré-existentes.

A ausência de sintomas não significa ausência de danos. Muitas complicações cardiovasculares evoluem de maneira progressiva e silenciosa ao longo dos anos. Por isso, o uso indiscriminado de hormônios e anabolizantes representa um risco importante para a saúde, especialmente entre jovens que buscam resultados rápidos sem acompanhamento adequado.

A prática regular de atividade física continua sendo uma das principais ferramentas de proteção cardiovascular. Porém, saúde e desempenho não devem ser confundidos com o uso de substâncias que podem comprometer o funcionamento do coração e colocar a vida em risco.

Dr. Aloisio Barbosa Filho é cardiologista e vereador de Petrópolis