O lobo da estepe

Por Rosina Bezerra de Mello

Herman Hesse (1877-1962), escritor e pintor alemão, cidadão suíço, prêmio Nobel de Literatura (1946), possui vasta obra com profundas reflexões sobre os efeitos emocionais e sociais da guerra. Construiu para si uma sólida cultura autodidata, dedicando-se à literatura.

Sua primeiro livro foi de poemas (1899). Seus romances iniciais tratavam da busca pela paz interior de um artista fracassado, como em "Peter Camenzind" (1904), "Gertrud" (1910) e "Rosshalde" (1914). Viajou à Índia em 1911, refletindo em sua obra Siddhartha (1922), um romance poético, ambientado na Índia budista, sobre a busca pela iluminação interior. Nessa linha, escreveu "Narciso e Goldmund" (1930) e "Viagem ao oriente" (1958). Também escreveu influenciado pela psicologia analítica de Carl Gustav Jung, que conheceu em decorrência de uma crise emocional sofrida por ele, causada pela eclosão da 1ª Guerra Mundial. O romance "Demian" (1917) preencheu o vazio da geração que voltou dessa Guerra para casa. Após 2ª Guerra, "O jogo das contas de vidro" (1943) trouxe alento, ordem, disciplina, o poder de meditação, amor pela humanidade e a poética para os jovens mergulhados no caos de uma Alemanha fisicamente destruída e emocionalmente dilacerada. "Sobre a Guerra e a Paz" (1946) é uma coletânea de ensaios, cartas e artigos escritos pelo autor, reunindo suas reflexões pacifistas e humanistas, redigidas principalmente durante e após a 1ª Guerra, com duras críticas ao nacionalismo exacerbado e à violência. A obra autobiográfica "Obstinação" (1919) contém cartas da adolescência, os conflitos da infância, defesa da liberdade, do espírito e da pessoa humana. Em "O lobo de estepe" (1927), mesclando elementos autobiográficos e ficcionais, Hesse trata da angústia existencial humana e de vícios, com delicadeza e magia, em busca de um propósito existencial. É sua obra mais famosa, especialmente, para o movimento contracultura do pós-guerra.

Entre os 54 livros publicados: 11 são romances, 10 de contos, 6 de poesias, 5 de não ficção, 4 de biografias, 18 de gêneros variados. Sem viés político ou panfletário, os temas recorrentes são: crítica ao Nacionalismo e à Violência; defendeu que a guerra destrói o espírito humano e afasta os indivíduos de sua verdadeira essência; destaca a responsabilidade social de artistas e pensadores, pois eles têm o dever moral de elevar a cultura e defender a fraternidade, em vez de incitar o ódio entre os povos; a paz no mundo não pode ser alcançada apenas por acordos políticos, defendia que ela começa com a transformação e a pacificação do indivíduo através do autoconhecimento e amor à humanidade; busca entender as raízes psicológicas do conflito e os caminhos para a harmonia.

Após sua morte, Hesse tornou-se o autor europeu mais lido e traduzido do século XX. Ele foi, e ainda é, popular entre leitores jovens. No Brasil, entre 1960 e 1970, tornou-se um dos autores estrangeiros mais lidos. Eu fui uma das suas leitoras mais obstinadas!

Rosina Bezerra de Mello é doutora em estudos literários e professora