Capitalismo para Todos: Desenrola ou Credit Score?
O livro Capitalism for All, de John Hope Bryant, parte de uma ideia simples e poderosa: o capitalismo só permanece legítimo quando funciona para a maioria das pessoas.
Não se trata apenas de mercado. Trata-se de acesso.
Acesso ao crédito, ao investimento, à formação de patrimônio e à possibilidade concreta de ascensão social.
É justamente aí que surge uma diferença profunda entre o debate brasileiro e a lógica das economias mais dinâmicas do mundo.
O Desenrola Brasil atua depois que a dívida virou problema. O credit score atua antes que ela aconteça.
O Desenrola renegocia passivos já existentes. O credit score cria condições permanentes para premiar o bom comportamento financeiro.
Um é defensivo. O outro é construtivo.
O Desenrola oferece descontos e reorganiza dívidas vencidas. Tem importância social pontual, especialmente em um país com dezenas de milhões de inadimplentes. Mas atua sobre a consequência.
O credit score atua sobre a causa.
Ele funciona como uma espécie de currículo financeiro permanente. O sistema reúne histórico de pagamentos, pontualidade, endividamento e relacionamento financeiro do cidadão para medir risco individual. Quanto melhor o histórico, maior o score. Quanto maior o score, menores os juros e maior o acesso ao capital.
O bom pagador é premiado continuamente.
Foi exatamente isso que os Estados Unidos começaram a construir desde os anos 1950, posteriormente aperfeiçoado pela Fair Isaac Corporation.
Um jovem começa utilizando um pequeno cartão de crédito. Paga corretamente suas contas. Seu score sobe. Os juros caem. O limite aumenta. O banco oferece mais crédito, e mais barato.
O sistema passa a confiar e apostar nas pessoas.
Isso reduz spreads bancários, amplia a concorrência, diminui riscos e acelera investimentos. O risco deixa de ser tratado como coletivo e passa a ser individualizado.
É justamente essa lógica que atravessa o livro de Bryant, reforçada por Michael Milken e Andrew Young, histórico aliado de Martin Luther King Jr..
Andrew Young remete diretamente a King ao lembrar que liberdade política sem oportunidade econômica torna-se incompleta. Acesso ao capital e educação financeira passam a ser vistos como direitos civis modernos.
Capitalismo sem acesso ao capital deixa de ser capitalismo pleno. Aproxima-se do feudalismo financeiro.
Michael Milken, por sua vez, alerta para o enfraquecimento da mobilidade social e da classe média americana. Por isso, criou o Center for the American Dream, dedicado justamente a revitalizar o sonho americano.
Na lógica do sonho americano, o capitalismo só funciona quando amplia escadas sociais.
E talvez esteja exatamente aí uma das diferenças mais profundas entre sociedades dinâmicas e sociedades estagnadas.
Economias bem-sucedidas apostam na capacidade produtiva da população. Apostam no pequeno empreendedor, nas microempresas, nas startups, no comércio local, na criatividade econômica das famílias e na formação contínua da classe média.
Os Estados Unidos compreenderam isso ao longo do século XX.
A China também compreendeu, por outro caminho histórico. Seu crescimento extraordinário ocorreu não apenas pela industrialização, mas pela gigantesca mobilização produtiva de centenas de milhões de pessoas que passaram a empreender, consumir, investir e ascender socialmente.
As duas maiores economias do planeta entenderam algo semelhante: sociedades prosperam quando milhões de pessoas conseguem subir degraus econômicos.
E isso não funciona por soma. Funciona por multiplicação.
Cada pequeno negócio que cresce, cada família que compra uma casa, cada jovem que consegue crédito para estudar ou empreender produz um efeito multiplicador sobre toda a economia.
É isso que cria uma verdadeira classe média.
O Brasil, porém, ainda parece distante desse debate. Nosso chamado cadastro positivo surgiu apenas em 2011 e ganhou adesão automática em 2019. Mas continua limitado, funcionando muito mais como um registro complementar de pagamentos do que como um verdadeiro sistema estrutural de credit score.
Aqui, frequentemente, até o bom pagador continua pagando caro.
O banco brasileiro não precifica apenas o cliente. Precifica a instabilidade do país inteiro.
Resultado: o spread bancário brasileiro permanece entre os maiores do mundo.
O Desenrola Brasil tenta reorganizar o passado. O credit score organiza o futuro.
Um administra consequências. O outro multiplica oportunidades.
Talvez esteja aí uma das grandes escolhas econômicas do Brasil nas próximas décadas: continuar administrando fragilidades ou começar, finalmente, a construir um capitalismo positivo, baseado em confiança, mobilidade social e acesso amplo ao capital.
O credit score funciona há mais de 70 anos nos Estados Unidos. Por que ainda não funciona plenamente aqui?
*Vinícius Lummertz é Senior Fellow do Milken Institute, foi ministro do Turismo e secretário de Turismo e Viagens
de São Paulo.