Guerra e Paz
"Guerra e Paz" (1869), de Liev Nikoláievitch Tolstói, retrata a sociedade russa durante as invasões napoleônicas (1805-1820), mesclando fatos históricos, ficção e as impressões do autor, analisando a vida e a guerra com profundidade. O romance entrelaça as vidas de cinco famílias aristocráticas, alteradas com o impacto da invasão francesa (1812). A trama explora a busca por sentido existencial, a falsidade da vida social e a brutalidade da guerra. O estilo é realista e seco, com descrições cuidadosamente detalhadas, negando visões românticas dos conflitos. É uma das obras mais volumosas da história da literatura universal.
Tolstói apresenta sua teoria fatalista do determinismo histórico, no qual o livre-arbítrio não tem valor, pois todos os fatos só obedeceriam ao curso irrefutável das consequências, definindo tanto a felicidade quanto a tragédia coletiva ou pessoal.
A versão original de "Guerra e Paz" é de 1863. Publicada em capítulos na revista literária russa Russkii Vestnik entre 1865 e 1869, com o título "1805". Tolstói reescreveu a novela integralmente entre 1866 e 1869. Esta nova versão foi publicada como a novela oficial sob o título "Guerra e Paz". Ele não destruiu o manuscrito original, que foi editado na Rússia em 1983. A primeira versão é diferente desta nova em vários aspectos, especialmente no contundente "final feliz".
Há um aspecto curioso na obra: embora a maior parte tenha sido escrita em russo, os diálogos mais significantes, incluindo a sentença inicial, são escritos em francês. Tal fato remete à realidade da época e a uma crítica: a aristocracia russa do século XIX falava o francês entre si em lugar do idioma nativo russo por pura soberba.
O texto padrão russo é dividido em quatro livros (quinze partes) e dois epílogos. Um é narrativo; o outro inteiramente temático filosófico. Cerca de metade da obra diz respeito aos 500 personagens ficcionais. As partes finais e um dos dois epílogos, contém ensaios realistas sobre a natureza da guerra, o poder político e a História, desafiando convenções literárias. Por essa razão, algumas versões abreviadas do livro retiram esses ensaios, outras os movem para um apêndice.
O tamanho da obra dificulta a realização de um resumo objetivo. Além disso, a narrativa vem entrelaçada com reflexões do autor. A ação se instala entre 1805 e 1820, prevalecendo determinados fatos históricos em momentos-chave: a Guerra da Terceira Coalizão (1805), a Paz de Tilsit (1807) e a Campanha da Rússia (1812) contra Napoleão. A obra vai além das relações franco-russas à época. Apresenta as batalhas de Schoengraben, Austerlitz e de Borodino; descreve os nobres da Rússia czarista; aborda temas como: a questão dos servos, as sociedades secretas e a guerra. Não é possível encontrar um "herói".
A obra é perfeitamente coerente: Se não há livre arbítrio, se há somente o determinismo histórico, não pode haver herói. Todos somos levados pela correnteza feroz e implacável dos acontecimentos.
Rosina Bezerra de Mello é doutora em estudos literários e professora