A morte é igual para todos. O luto, não
Milhões de brasileiros assistiam ao Big Brother Brasil quando a participante Ana Paula foi informada, a dois dias da final, da morte de seu pai. Dois dias antes, o apresentador Tadeu Schmidt chorava ao vivo pela morte do irmão, o ex-jogador de basquete Oscar Schmidt.
Mesmo visivelmente desolada, Ana Paula escolheu continuar na disputa. Faltavam dois dias para a final, e ela era considerada favorita, embora sem plena certeza disso após enfrentar diversos paredões.
Tadeu chorou ao vivo, com o irmão, o "Mão Santa", no telão do reality show. Nas redes sociais, houve quem acusasse a TV Globo de desumana por não ter encerrado o programa.
Decisões como essa, no entanto, não são simples, já que o BBB responde por uma fatia relevante do faturamento anual da emissora.
Ana Paula poderia sair para o sepultamento do pai, mas, nesse caso, seria automaticamente eliminada. A regra é conhecida por todos os participantes, ainda que ninguém espere enfrentar uma perda desse tipo durante o confinamento.
Em entrevista à jornalista Poliana Abritta, Tadeu relembrou o irmão por meio de fotos e histórias. Com a voz embargada, admitiu que não lida bem com a morte.
Certa vez, entrevistei Fernanda Montenegro quando ela completava 85 anos. Perguntei como se sentia ao chegar àquela idade, e ela respondeu que o mais difícil era ver partir os amigos de sua geração e também das anteriores. Disse que já havia perdido a conta de quantos velórios frequentou ao longo da vida.
Tadeu voltou a trabalhar no mesmo dia, e Ana Paula seguiu até o fim do programa. Ambos estavam abalados, mas contavam com uma rede de apoio financeira, emocional e profissional que a maioria das pessoas não tem.
Pela CLT, o trabalhador brasileiro tem direito a dois dias consecutivos de licença em caso de morte de familiares próximos. Não importa o tamanho da dor envolvida. Para outros vínculos, como tios, primos ou pessoas com quem se mantém uma convivência próxima, não há garantia legal, e a ausência acaba dependendo da sensibilidade do empregador.
Um projeto aprovado pelo Senado em setembro de 2025 propõe ampliar esse prazo para oito dias, mas a medida ainda está em análise na Câmara dos Deputados.
Em 2022, a Organização Mundial da Saúde passou a reconhecer o luto prolongado como um transtorno. Em alguns casos, a dor não diminui com o tempo e segue ocupando o cotidiano de forma intensa, dificultando a aceitação da perda e o retorno à vida. Não se trata de fraqueza nem de falta de superação, mas de uma condição que pode paralisar.
O Estado sabe exatamente quando agir, que é no momento da morte, quando a certidão de óbito é emitida. O que falta vem depois. A morte é igual para todos. O luto, não.
*Jornalista, mestre e doutorando em Gestão e Políticas Públicas pela FGV