Sobre dizer não
"Obrigado, mas eu não bebo."
Há algum tempo, essa tem sido a minha resposta. O constrangimento, que sequer deveria existir, é inevitável. Mais ainda quando a pergunta seguinte surge imediatamente: "mas por quê?".
É curioso como a recusa de um copo ainda causa estranhamento. Como se o "não" precisasse vir acompanhado de uma justificativa, quase uma prestação de contas. Religião, remédio, direção, dieta, doença. Parece que a simples escolha de não beber nunca basta.
Curiosamente, entre os mais jovens, esse cenário começa a mudar.
A geração Z, formada por quem nasceu entre o fim dos anos 1990 e o início da década de 2010, é a que menos consome álcool.
Falta de interesse, busca por qualidade de vida e a tentativa de evitar os efeitos físicos e emocionais da bebida aparecem entre os motivos mais citados.
No meu caso, a percepção veio por outro caminho.
Eu senti culpa. Muita culpa.
Era angustiante não lembrar exatamente como eu havia voltado para casa. A memória que insistia em falhar no dia seguinte, os riscos e a vulnerabilidade.
Demorei um tempo para admitir isso a mim mesmo.
Hoje, aos 38, consigo olhar de forma menos embaçada para o lugar que o álcool ocupou na minha vida.
Mas essa percepção não veio agora. Ela começou a se desenhar ali pelos 30 anos.
Houve momentos em que eu sabia a hora de começar, mas não a de parar. Quase sempre aos finais de semana, naquilo que eu chamava de forma de extravasar.
Vieram daí os lapsos de memória, a angústia do dia seguinte e a sensação persistente de que algo ali já não me fazia bem.
Talvez parte do problema esteja justamente aí: o álcool ocupa, entre nós, um lugar de absoluta normalidade. Está no brinde das comemorações, no chope depois do trabalho, no almoço de família, no encontro entre amigos e, muitas vezes, também nos momentos em que alguém tenta aliviar a tensão, a tristeza ou o cansaço.
Talvez por isso o "não" ainda incomode tanto.
Certa vez, em uma festa, um amigo me empurrou uma dose de cachaça, goela abaixo. "Essa é de Minas, das boas", disse ele, com o tom de quem oferece afeto. Sei que não foi por mal, mas foi incômodo.
O problema é que essa normalização muitas vezes nos impede de olhar para a dimensão real do tema.
Os efeitos do álcool não se restringem a quem bebe. Levantamento com base em ocorrências da Polícia Civil de São Paulo, divulgado em março deste ano, identificou 50.805 casos de violência doméstica associados ao consumo de álcool entre 2023 e 2024, o equivalente a 70 ocorrências por dia, em média, em apenas um estado.
Um estudo recente da Fiocruz mostrou que o consumo de álcool está associado a uma média de 12 mortes por hora no Brasil e a um custo anual de R$ 18,8 bilhões, considerando internações, procedimentos no SUS, perdas de produtividade, licenças médicas e aposentadorias precoces.
A Organização Pan-Americana da Saúde e a Organização Mundial da Saúde estabeleceram como meta global reduzir em pelo menos 20% o uso nocivo do álcool até 2030.
Talvez esteja na hora de tratar o álcool como tema de política pública, como o país fez, no passado, com o cigarro.
Durante anos, a publicidade do álcool ajudou a vender uma ideia de prazer, sucesso e pertencimento que não corresponde à experiência de todos. Basta lembrar das campanhas que, por tanto tempo, associaram a bebida à sensualidade, à performance e à ideia de que beber seria quase um requisito para se integrar.
Para muitas famílias, o álcool não está associado à celebração, mas ao medo, ao risco, ao silêncio e, em casos extremos, à violência.
O álcool não significa a mesma coisa para todo mundo.
*Jornalista, mestre e doutorando em Políticas Públicas pela Fundação Getulio Vargas