Em Campinas, Tarcísio anuncia obra enquanto a saúde entra em colapso

Por Carlos Zarattini*

Dário e Tarcísio durante entrega da duplicação da Rodovia Miguel Melhado

Tarcísio de Freitas veio a Campinas anunciar a construção de um novo hospital com 400 leitos. O problema é que a obra, recém-licitada, tem prazo estimado de 36 meses, enquanto o colapso da saúde já está instalado. Hospitais de referência operam muito acima da capacidade, cirurgias eletivas do SUS foram suspensas e a população enfrenta o caos no atendimento. O governador tenta capitalizar politicamente a promessa, mas o problema exige resposta imediata.

A situação em Campinas é dramática. O pronto-socorro do Hospital de Clínicas da Unicamp chegou a operar com 394% de ocupação. No Hospital PUC-Campinas, a taxa atingiu 365%, com pacientes em macas pelos corredores e suspensão, por tempo indeterminado, das cirurgias eletivas do SUS. Nos hospitais Mário Gatti e Ouro Verde, a ocupação variou entre 93% e 100%. Diante desse quadro, anunciar uma obra para daqui a três anos não responde à urgência de quem precisa de atendimento agora.

O governador tenta vender o Hospital Metropolitano como solução futura, mas evita enfrentar o problema imediato de uma rede regional que já opera no limite. Tarcísio também agravou a instabilidade do HC da Unicamp ao manter pendências nos repasses do SUS Paulista, num momento em que o hospital acumulou déficit superior a R$ 100 milhões e permaneceu como uma das principais referências de alta complexidade da região.

A gravidade do problema aumenta porque a pressão do governo estadual não recai sobre qualquer unidade. O HC da Unicamp integra um dos mais importantes complexos públicos de saúde do país. Reúne assistência, ensino, pesquisa e formação profissional, com impacto direto sobre Campinas, Sumaré e toda a região. Ao atrasar repasses, sufocar financeiramente esse sistema e defender sua autarquização, Tarcísio enfraquece um modelo público que fez da Unicamp referência nacional em saúde e abre caminho para a privatização sob outro nome.

A crise em Campinas também expõe problemas acumulados na gestão local. Nos últimos anos, houve redução do investimento por usuário cadastrado na rede pública municipal, mesmo com o aumento dos repasses federais, que passaram de cerca de R$ 412 milhões, em 2022, para quase R$ 530 milhões, em 2025. Em vez de fortalecer a estrutura pública, a administração permitiu o enfraquecimento progressivo da rede, sobretudo na base do atendimento.

Isso fica visível na atenção básica. Em vez de recompor equipes e fortalecer o atendimento direto, a gestão concentrou parte de sua reorganização em funções ligadas ao controle de contratos terceirizados. A terceirização das UPAs não resolveu a falta de assistência. Sem acesso adequado aos centros de saúde, hoje sucateados, a população corre para hospitais que já não têm onde acomodar ninguém.

O quadro se repete no Centro de Saúde Centro. Em março, trabalhadores da unidade anunciaram a suspensão das atividades de rotina em carta aberta à comunidade, após relatarem episódios de violência, agressões a profissionais, déficit de médicos, superlotação, falta de segurança e descaso da administração municipal. O caso mostra o efeito direto do enfraquecimento da atenção básica, quando a precariedade deixa de ser pontual e passa a comprometer o funcionamento do serviço.

A crise da saúde em Campinas não surgiu de repente. Ela foi produzida pelo desmonte da atenção básica, pela terceirização e pela omissão diante do esgotamento da rede. Tarcísio tenta agora transformar uma obra de longo prazo em resposta política para um sistema que exige providências imediatas. Saúde pública não pode virar peça de anúncio enquanto faltam leitos, atendimento e recursos para sustentar o SUS onde ele já existe e funciona.

*Economista pela USP e deputado federal pelo PT/SP