Governo explora terreno fértil para ampliar medidas em ano eleitoral

Por Idiana Tomazelli*

Em novo capítulo de sua cruzada contra a alta no preço dos combustíveis, o governo Lula (PT) decidiu mais que triplicar a subvenção destinada ao diesel e anunciou medidas adicionais para atacar o preço do gás de cozinha e socorrer o setor aéreo.

Em outra frente de batalha, a equipe econômica discute como reduzir o endividamento das famílias. Antes mesmo do lançamento, o pacote ganhou tentáculos para abarcar também MEIs (microempreendedores individuais), micro e pequenas empresas e dívidas estudantis.

O que começou como medidas pontuais para enfrentar os efeitos da guerra no Irã agora escala para um cardápio de ações de maior monta -coincidentemente, no momento em que as pesquisas indicam cenário desafiador para o petista nas urnas.

A dúvida agora é até onde o governo vai para minimizar o desconforto da população em ano eleitoral, e sob quais critérios.

Se por um lado a equipe econômica apontou a lógica por trás do novo subsídio para o diesel importado (garantir o abastecimento interno com ajuda de R$ 1,20 por litro, equivalente à cobrança de ICMS), por outro não deixou claro o motivo de estender a ajuda extra ao produto nacional (R$ 0,80 por litro).

O subsídio ao gás de cozinha e o socorro ao setor aéreo, com desoneração do querosene e linhas de crédito com condições facilitadas, também se dão sob a justificativa da guerra, embora analistas vejam apenas o desejo do governo de tentar segurar na marra preços que impactam o bolso dos eleitores.

O verdadeiro custo das medidas ainda é desconhecido. O governo prevê impacto de R$ 31 bilhões com as ações voltadas a combustíveis, a ser coberto por um imposto sobre exportação de petróleo. Mas a conta desconsidera o custo de emprestar dinheiro (para o setor aéreo, por exemplo) a uma taxa menor do que aquela paga pelo próprio Tesouro para se financiar no mercado.

Enquanto os números dessa fatura continuam opacos, o governo discute como baixar a conta de luz e reduzir a fila do INSS. O terreno é fértil.

*Jornalista. Escreve sobre economia na Folha de São Paulo, com foco em contas públicas, Previdência e políticas sociais