Vende-se saúde mental

Por Victor Corrêa*

Diante de um problema, quase sempre surge uma solução sob medida. Quase sempre com pompa, como se fosse a descoberta do milênio. E, não raro, transformada em oportunidade de negócio.

Diante da divulgação cada vez mais frequente de dados alarmantes sobre a saúde mental dos trabalhadores brasileiros, multiplicam-se consultorias e plataformas que se vendem como modernas, inovadoras e à frente do seu tempo, oferecendo respostas aparentemente rápidas para um sofrimento que, muitas vezes, é produzido no próprio ambiente de trabalho.

O ponto central é que, dentro de muitas organizações, a lógica de trabalho permanece a mesma. Há casos em que a empresa sequer assina a carteira de trabalho. Propõe contrato como pessoa jurídica, embora a rotina siga sendo presencial, com horário, metas e subordinação.

Como benefício, oferece mesas de totó, chocolate à disposição na copa, sessões de terapia, convênios com academias, plataformas de meditação e programas de bem-estar. É uma espécie de marketing do bem-estar que, por si só, não altera a forma como as pessoas são tratadas no trabalho.

Um ambiente de trabalho saudável não se constrói com um bombom sobre a mesa a cada meta batida.

A questão está na forma como essas plataformas passam a ser vendidas como solução para o absenteísmo, os afastamentos por saúde mental e a alta rotatividade nas equipes — e, muitas vezes, compradas pelas organizações como se bastasse separar uma parte do orçamento para esse "negócio da saúde mental" e, com isso, considerar o problema resolvido.

As plataformas, por sua vez, frequentemente se tornam a primeira porta de entrada para que o funcionário consiga colocar para fora, diante de um psicólogo, aquilo que sente, seja em relação à vida profissional, seja na esfera pessoal. O problema não está nelas em si, mas na distorção que ocorre quando esse cuidado passa a funcionar como substituto da revisão das práticas internas.

Nem sempre o adoecimento no trabalho se manifesta de forma explícita. O assédio moral não precisa vir acompanhado de gritos histéricos, humilhações públicas ou ameaças abertas. Muitas vezes, ele opera de forma silenciosa: na exclusão de reuniões, na ausência deliberada de retorno, na retirada progressiva de funções e no isolamento cotidiano de quem passa a ser silenciado.

A empresa possui algum espaço real de escuta para seus funcionários, inclusive para críticas, sem que isso produza medo de retaliação?

Por que terceirizar o cuidado, contratando plataformas e serviços de acolhimento psicológico, se a própria organização não se dispõe a ouvir aquilo que ajuda a produzir?

Em grandes empresas, canais como Compliance e Ouvidoria deveriam funcionar como instâncias confiáveis para ouvir denúncias, mediar conflitos e apurar condutas abusivas. Na prática, nem sempre é assim.

O profissional de nível operacional procura o setor para relatar uma conduta que considera abusiva, atribuída ao seu chefe direto. A princípio, é recebido de forma afável. Oferecem café, acolhem, escutam. Por um instante, acredita que finalmente será ouvido.

Meses depois, vem o desligamento, quase sempre justificado por argumentos genéricos, como desempenho ou reestruturação.

Os números mais recentes ajudam a dimensionar a gravidade do problema. Em 2025, o Tribunal Superior do Trabalho registrou 142.814 novos processos por assédio moral, um aumento de 22,3% em relação ao ano anterior. Esse não é um dado isolado. É um sinal de alerta sobre a forma como as relações de trabalho seguem sendo conduzidas.

Gestores também atravessam vulnerabilidades, inseguranças e instabilidades. Também são trabalhadores. Não se trata de transformá-los em vilões. Muitos erros são cometidos sem que sequer se perceba o equívoco, muitas vezes por inexperiência no cargo ou pela ausência de preparo para lidar com pessoas e conflitos.

Cabe às organizações, portanto, investir em boas práticas de gestão e formação de lideranças, para que esses profissionais possam replicá-las junto às equipes.

A cultura da empresa dificilmente será construída por consultorias e prestadores de serviço. Nem todo problema pode ser terceirizado.

*Jornalista, mestre e doutorando em Gestão e Políticas Públicas pela FGV