O endividamento dos brasileiros precisa entrar na eleição Inadimplência recorde revela um modelo que impede a formação de poupança e deveria estar no centro do debate nacional

Por Vinícius Lummertz*

O Brasil se aproxima de mais um ciclo eleitoral discutindo temas importantes, mas evitando enfrentar um dos problemas mais estruturais de sua economia: o endividamento crescente das famílias e a incapacidade do país de transformar renda em poupança e poupança em investimento.

Mais de 87 milhões de brasileiros estão inadimplentes, segundo a Serasa Experian, em um quadro que se agravou com crescimento próximo de 40% na última década, número que, apesar de sua dimensão, passou a ser tratado com naturalidade no debate público, como se fosse apenas mais um indicador social, quando, na realidade, revela uma falha profunda na forma como o modelo econômico brasileiro organiza renda, crédito e acumulação.

A inadimplência, nesse contexto, não é um desvio, tampouco um problema periférico, mas a expressão visível de um sistema que consome a renda antes que ela possa se transformar em poupança, impedindo que o país forme capital de maneira consistente. Do lado humano, corrói as famílias brasileiras, gerando tristeza e violência.

Sem poupança, não há investimento sustentável, e essa não é uma discussão ideológica, mas uma relação elementar da economia, na qual poupança e investimento são partes inseparáveis do mesmo processo, sendo a primeira a condição necessária da segunda.

As economias que cresceram de forma contínua compreenderam esse vínculo.

Nos Estados Unidos, a elevada produtividade sustenta uma massa salarial robusta, de 60% da economia, que se converte em poupança por meio de fundos de pensão e mercados de capitais, alimentando o investimento produtivo. Na China, por caminhos distintos, a poupança supera 40% do PIB e é direcionada de forma sistemática para infraestrutura, indústria e tecnologia, sustentando décadas de expansão econômica.

No Brasil, a taxa de poupança permanece ao redor de 16% do PIB, e o investimento acompanha esse patamar, em níveis insuficientes para sustentar crescimento consistente, especialmente quando comparados ao patamar de aproximadamente 25% observado nas economias que lograram acelerar seu desenvolvimento.

Mas o problema não está apenas na quantidade de poupança, e sim na forma como a renda é capturada ao longo do caminho.

A baixa produtividade comprime salários, o alto custo do emprego formal limita a expansão da renda, e o crédito caro, frequentemente acima de 40% ao ano, transforma a intermediação financeira em um verdadeiro imposto implícito sobre o trabalho, corroendo a renda antes que ela possa se transformar em acumulação.

Esse mecanismo, que se aproxima do que a literatura econômica denomina financial repression, contribui para um sistema que não forma capital, mas o dissipa, convertendo renda em endividamento e naturalizando a inadimplência como parte do funcionamento da economia.

Mesmo quando a poupança existe, o país encontra dificuldades para transformá-la em investimento, em razão de um ambiente de negócios complexo, inseguro e lento, que se traduz na posição 124 entre 190 economias no ranking Doing Business, refletindo um país onde projetos enfrentam anos de tramitação, incerteza regulatória e elevado risco jurídico.

Diante da insuficiência da poupança interna, seria natural complementar esse déficit com poupança externa, proveniente de fundos de pensão e investidores institucionais em um mundo que hoje dispõe de excesso de liquidez, mas o Brasil não consegue capturar esses recursos em escala relevante porque não oferece previsibilidade, segurança nem capacidade de execução.

O resultado é um impasse conhecido, mas pouco enfrentado: o país não acumula poupança suficiente e não consegue atrair capital externo na medida necessária, operando permanentemente abaixo do seu potencial.

Há, contudo, um aspecto ainda mais grave.

Tratar como rotina um endividamento que cresceu cerca de 40% em dez anos não é apenas um erro de leitura, é uma forma de acomodação diante de um problema estrutural, e, ao naturalizar esse quadro, o país abdica de enfrentá-lo e prolonga um modelo que corrói sua própria capacidade de gerar riqueza.

Esse tema deveria estar no centro do debate eleitoral.

Porque não se trata apenas de juros altos ou crédito caro, mas de um modelo econômico que impede a formação de uma classe média capaz de poupar, limita o investimento e compromete o crescimento de longo prazo.

Discutir crescimento sem discutir poupança é discutir aparência sem enfrentar fundamentos.

O Brasil precisa decidir, no voto, se continuará operando um modelo que consome renda antes de acumulá-la ou se enfrentará as reformas necessárias para reconstruir o vínculo entre trabalho, poupança e investimento.

Enquanto essa escolha não for feita de forma explícita, o país seguirá encenando crescimento, ao custo de manter sua população endividada e seu futuro comprometido. Enganar a população pode ser uma saída eleitoral, mas não será o futuro da democracia brasileira.

*Vinícius Lummertz é Senior Fellow do Milken Institute, foi ministro do Turismo e secretário de Turismo e Viagens de São Paulo