Você é uma pessoa difícil?

Por Victor Corrêa*

Talvez você já tenha sido chamado de "difícil". É um rótulo incômodo e impreciso ao tentar definir o outro.

No dia a dia, todos assumimos papéis diferentes. Podemos ser mais sérios no trabalho, brincalhões com os filhos em casa, bons colegas de equipe — e firmes quando discordamos de algo. Há muitas maneiras de ser quem somos. Mas, em muitos casos, o rótulo chega na frente.

Precisou se afastar do trabalho por questões ligadas à saúde mental? É possível que passe a ser percebido como emocionalmente instável, alguém que pode "dar problema" a qualquer momento. Como se o diagnóstico fosse uma sentença. Esse tipo de reação tem nome, ainda que pouco conhecido por aí: Psicofobia. É o preconceito contra quem vive algum tipo de sofrimento mental.

Isso não nasce do nada. Durante décadas, o sofrimento mental foi associado ao isolamento e aos manicômios — à ideia de que quem sofria precisava ser afastado do convívio. Parte desse olhar ainda persiste. Muitas vezes, esse preconceito é internalizado. A própria pessoa evita falar sobre o que sente e deixa de buscar ajuda.

Nas palavras do médico e professor da Universidade de São Paulo Taki Cordás, "é um preconceito contra a ideia de que o cérebro possa adoecer". Aceitamos que o pulmão ou o coração adoeçam. A cabeça, não. Como se fosse uma área privilegiada do corpo.

"Já tentou rezar mais?". "Você é muito sensível". "Levanta, tenha mais ânimo". Frases como essas são comuns — e revelam o quanto ainda temos dificuldade em lidar com o sofrimento psíquico. Em vez de acolher, desqualificam.

"Ela reagiu assim porque é bipolar." Outra cena comum. Alguém se posiciona em uma reunião, e o argumento, em vez de ser discutido, é descartado, não pelo que foi dito, mas por quem disse.

Atribuir diagnósticos a colegas com base em comportamentos pontuais não é apenas imprudente; é uma forma de deslegitimar a fala do outro. O argumento perde valor antes mesmo de ser considerado e é substituído por um rótulo. Uma discordância, algo saudável em qualquer ambiente profissional, pode passar a ser lida como descontrole ou instabilidade.

E quando aquela pessoa — reconhecida pelo compromisso com o trabalho — precisa de uma licença médica, depois outra, e meses depois uma terceira? Em muitas organizações, o desfecho é previsível: a demissão. O receio de novos afastamentos passa a pesar mais do que a competência demonstrada ao longo de anos. O diagnóstico deixa de ser visto como uma condição de saúde e passa a funcionar como um risco administrativo.

Esse cenário se torna ainda mais contraditório quando se observa o próprio ambiente de trabalho. Em 2025, o Tribunal Superior do Trabalho registrou mais de 140 mil novos processos por assédio moral — um aumento de 22,3% em relação ao ano anterior. No mesmo período, mais de meio milhão de trabalhadores foram afastados por transtornos mentais, o maior número em pelo menos uma década.  Ou seja: o mesmo espaço que, muitas vezes, adoece, é também o que mais desconfia de quem adoece.

Diante desse quadro, o governo federal anunciou a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que estabelece diretrizes gerais de saúde e segurança no trabalho e passou a incluir os riscos psicossociais, como metas abusivas, jornadas excessivas e assédio moral. A medida permitiria, inclusive, a aplicação de multas.

Após pressão do setor empresarial, sua implementação foi adiada por um ano e passa a valer, de forma plena, a partir de maio de 2026. Se não estavam preparados antes, estarão agora? Um diagnóstico em saúde mental, por mais sério que pareça, tem tratamento. A pessoa não é a crise que viveu no passado.

*Jornalista, mestre e doutorando em Políticas Públicas pela Fundação Getulio Vargas