A biografia de Niomar Moniz Sodré Bittencourt
A Mulher Que Enfrentou o Brasil, a excelente biografia da jornalista Niomar Moniz Sodré Bittencourt, que dirigiu o Correio da Manhã, de autoria de Ricardo Cota, é um documento do Brasil contemporâneo.
Mulher de muita personalidade e bravura, ela enfrentou o regime militar a ponto de ter custado o jornal deixar de circular. Mas comandou até o fim, com apoio do que havia de melhor na imprensa na ocasião.
Niomar, a quem o Rio e o Brasil devem o Museu de Arte Moderna do Rio, foi um caso de oposição pelo compromisso democrático e a liberdade de imprensa. Não era de esquerda e o próprio jornal condenava o caos reinante no país em 64, a ponto de ter entrado para a história os editoriais Chega e Fora. Não aceitava era censura e quebra da normalidade democrática na sucessão do presidente deposto.
Interessante observação é que naqueles anos 1960 três dos quatro grandes jornais do Rio eram dirigidos por mulheres, viúvas de fundadores ou proprietários. Além de Niomar, a Condessa Maurina Pereira Carneiro dirigia o Jornal do Brasil e Ondina Ribeiro Dantas, o Diário de Notícias.
A iniciativa da Editora Correio da Manhã se insere no contexto de mostrar a importância da imprensa no debate nacional e valoriza o ressurgimento décadas depois do histórico jornal fundado por Edmundo Bittencourt e dirigido décadas por Paulo, seu filho e marido de Niomar, com relevância no processo político, cultural e econômico do país neste momento em que se está a definir o futuro da nacionalidade. Cláudio Magnavita responsável pelo resgate do tradicional jornal assina uma das orelhas do livro .
Os empresários das empresas jornalísticas sempre tiveram uma presença muito positiva em iniciativas voltadas para as artes. Assis Chateaubriand criou o Museu de Arte de São Paulo, que leva seu nome e é considerado o maior acervo da América Latina, assim como Adolfo Bloch criou uma coleção de referência. A de Roberto Marinho está hoje no centro cultural que funciona em sua antiga residência, no Cosme Velho, no Rio. No caso de Niomar, o acervo, parcialmente perdido num incêndio, foi montado graças a seu esforço pessoal, que, morando parte do ano em Paris, cuidou de escolher muita coisa pessoalmente. E ainda teve forças no final da vida de contribuir muito para a recuperação do MAM. Este legado merece algo que perpetue a lembrança de sua importância na criação do museu, assim como a do colecionador Gilberto Chateaubriand, que doou parte de seu acervo, amigo de Niomar.
