Quando você não sabe o que sente
Ela tinha quase 60 anos quando descobriu que o que sentia tinha nome. Durante anos, chamou de cansaço. De nervosismo. De fase difícil. Só mais tarde alguém lhe disse: "O que você tem é depressão." Foram quatro décadas até que alguém nomeasse aquilo que tantas vezes lhe tirou o ar.
Dona Maria tem hoje 65 anos. Desde os 15, queixava-se de crises súbitas de sufocamento. Perdeu a conta de quantas vezes acreditou que estava morrendo. Em cada episódio, esperava que a respiração desacelerasse e que o coração deixasse de bater tão forte. Na adolescência, lembra-se da própria mãe acariciando suas mãos, numa tentativa de fazer aquilo passar. Naquela época, nos anos 70, o que hoje chamamos de transtorno era tratado apenas como "sistema nervoso".
Dona Maria sempre cuidou dos outros. Um dia, precisou ser cuidada. Pouco antes de completar 60 anos, a conta chegou sem aviso prévio. Enquanto molhava as plantas no quintal — rotina que sempre lhe deu prazer e equilíbrio — a sensação de sufocamento a levou para a cama. Dali não saiu por pelo menos uma semana. Algumas das plantas não resistiram àqueles dias de ausência.
O diagnóstico veio depois. As crises que atravessaram sua vida, repetidas e nunca tratadas, acabaram evoluindo para um quadro depressivo mais intenso.
Estudos em saúde mental mostram que quanto maior o tempo de um transtorno sem tratamento, maior o risco de agravamento, recorrência e prejuízo funcional. O que começa como um quadro leve pode se tornar incapacitante quando atravessa anos sem diagnóstico.
No Brasil, pouco falamos sobre o que sentimos. É como se não fosse permitido sofrer — ou sequer reconhecer o que se sente. A Organização Mundial da Saúde alerta que uma parcela significativa das pessoas com transtornos mentais não busca tratamento não apenas por falta de serviço, mas por estigma e dificuldade de reconhecer os próprios sintomas. A Comissão da revista médica The Lancet sobre estigma e discriminação reforça que o preconceito atua como barreira concreta ao cuidado, empurrando diagnósticos por anos.
Evidências internacionais apontam que o chamado self-stigma — a internalização de crenças negativas sobre sofrimento mental — está associado à demora em buscar tratamento. Mesmo diante de sinais claros, muitos adiam a procura por medo de serem rotulados.
Em grande parte dos casos, o atraso em reconhecer um transtorno não tem a ver apenas com a oferta de serviços de saúde. Tem a ver com nossa dificuldade de nomear o próprio sofrimento — e com estigmas culturais que ainda insistem em tratar dor psíquica como fraqueza.
É natural dizer que se vai ao dentista. Mas ao psiquiatra? Ainda há silêncio. Ainda há vergonha. Campanhas pontuais têm seu papel. Mas não bastam. Saúde mental precisa ser tratada como política permanente — com informação clara, comunicação contínua e estímulo à busca por ajuda antes que o sofrimento se torne incapacitante.
Hoje, em acompanhamento psiquiátrico regular e com medicação adequada, aquilo que antes a paralisava já não ocupa o centro de sua vida. O quintal voltou a ganhar cor. Dona Maria nunca mais deixou de regar o jardim. Diz que o cuidado diário lhe devolve equilíbrio quando a tristeza ameaça reaparecer.
Pesquisas internacionais confirmam que o contato frequente com a natureza está associado à redução de sintomas de depressão e ansiedade. Nomear o que se sente é o primeiro passo para qualquer tipo de tratamento. Um diagnóstico não é uma sentença. É um mapa. Ninguém deveria caminhar no escuro sem saber o nome da própria dor.
*Jornalista, mestre e doutorando em Gestão e Políticas Públicas pela Fundação Getulio Vargas
