Hubris — quando a certeza moral se perde na avenida

Por Vinicius Lummertz*

Uma antiga lição sobre o risco de a cultura afastar-se da complexidade social

A tragédia grega chamava de hubris a arrogância que nasce da convicção de superioridade moral, a perda de medida que leva indivíduos, elites ou instituições a acreditarem compreender a realidade melhor do que a própria sociedade. O desfile recente da Acadêmicos de Niterói, com sua narrativa política explícita e confrontacional, recolocou essa ideia no centro do debate brasileiro contemporâneo.

Não se trata de questionar a liberdade artística, que deve permanecer ampla e protegida. O ponto é outro. Em certos momentos a manifestação cultural abandona a ambiguidade simbólica e assume a posição de julgamento moral, revelando a crença de que existe uma leitura superior da sociedade e, com ela, o risco de simplificar o mundo real.

Essa postura não é nova. Democracias também podem gerar formas sutis de conformismo intelectual quando grupos passam a acreditar que representam o espírito do tempo, algo que Tocqueville já percebia ao analisar as pressões invisíveis dos consensos morais.

No Brasil, essa matriz consolidou-se a partir dos anos 1970 no ambiente universitário e cultural, sob influência do pensamento marxista e da teologia da libertação, formando o que se convencionou chamar de inteligência cultural brasileira. Como toda hegemonia prolongada, produziu contribuições relevantes, mas também uma inclinação ao pensamento homogêneo, por vezes distante da diversidade concreta da sociedade.

Nos últimos anos, essa tradição dialogou com elementos da cultura woke, sobretudo na lógica de vigilância moral e na predisposição a classificar visões divergentes como sinais de atraso. Não se trata de fenômenos idênticos, mas compartilham a ideia de superioridade que dispensa o esforço de compreender o outro.

Isso ocorre quando teorias passam a ignorar as aspirações sociais concretas. A tradição marxista imaginava o proletariado como sujeito de ruptura, mas a experiência histórica mostrou que, em sociedades abertas, a aspiração dominante não foi abolir a classe média, e sim integrar-se a ela, constatação que Raymond Aron apontou como típica das ilusões ideológicas do século XX.

No Brasil esse traço é evidente. O sonho social majoritário, frequentemente rotulado como conservador por estar ancorado na família, continua sendo ascender, melhorar de vida, garantir estabilidade e ampliar autonomia. A expansão das igrejas evangélicas e a chamada teologia da prosperidade refletem essa busca por progresso material e reconhecimento social, muitas vezes interpretada de forma reducionista. O equívoco estaria, na dimensão do Nobel Amartya Sen, em não perceber o sinônimo: liberdade.

Ignorar essa dimensão constitui exemplo clássico de hubris intelectual, quando a teoria passa a prevalecer sobre a experiência vivida. Ao tratar a classe média e seus valores como categorias suspeitas, parte do discurso cultural deixa de perceber que, para milhões de brasileiros, ela representa não um obstáculo, mas uma conquista.

Na avenida, a imagem dos conservadores enlatados condensou em caricatura uma realidade social muito mais complexa do que a narrativa sugeria. A fantasia da família em conserva funcionou como rastilho de pólvora ao converter em caricatura uma instituição transversal à sociedade brasileira, gerando a percepção de rebaixamento moral do modo de vida de milhões.

O embate político com personificações e ataques morais na avenida foi, em si, sintoma dessa hubris. Em ano eleitoral, a controvérsia tende a extrapolar o campo simbólico e migrar para o terreno jurídico e partidário, convertendo a expressão cultural em objeto de disputa política. Ao aproximar-se da racionalidade eleitoral, o desfile reduziu o espaço do lúdico e da imaginação, territórios onde a cultura encontra sua força, e passou a operar sob códigos típicos da polarização. A questão que se impõe é se não há aí uma forma de empobrecimento cultural quando a criação abdica de sua ambiguidade para aderir à lógica da disputa.

Essa tensão entre elites culturais e sentimento social não é exclusividade brasileira. Ela emerge sempre que grupos acreditam possuir interpretação definitiva da história e passam a olhar a sociedade mais como objeto de correção do que de compreensão.

O Brasil real revela-se menos ideológico e mais pragmático do que muitas narrativas sugerem, movido pela busca de pertencimento, mobilidade e estabilidade. Como observa Mangabeira Unger, talvez sejamos o maior povo da autoajuda do planeta.

As lições históricas permanecem claras. Sempre que uma visão se apresenta como moralmente incontestável, cresce a probabilidade de desconexão com a realidade.

No fim, a questão talvez seja menos sobre um desfile específico e mais sobre um traço recorrente das sociedades contemporâneas. Sempre que a cultura se aproxima demais da certeza moral e se afasta da escuta da experiência comum, corre o risco de perder a capacidade de representar aquilo que pretende interpretar. A arte vive da ambiguidade, da abertura e da imaginação compartilhada, e é justamente nesse território que encontra sua força e sua legitimidade.

Quando se deixa capturar pela lógica da disputa e pela urgência de afirmar verdades, reduz o espaço simbólico que sustenta sua vitalidade e se aproxima de uma linguagem que lhe é estranha. O episódio recente expõe esse deslocamento e serve como alerta sobre os limites entre expressão cultural e afirmação moral. Um fato foi o rebaixamento da Acadêmicos de Niterói com baixíssimas pontuações. O outro fato, foi a retumbante vitória da Viradouro, escola de Niterói que homenageou a arte do grande carnavalesco Mestre Ciça.

Como lembravam os gregos, a hubris raramente se apresenta como erro. Surge quase sempre como convicção, como certeza de estar do lado correto da história. Talvez por isso mesmo suas consequências sejam percebidas apenas quando o distanciamento entre representação e realidade já se torna evidente.

*Vinícius Lummertz é Senior Fellow do Milken Institute, foi ministro do Turismo e secretário de Turismo e Viagens de São Paulo