Movimento antigênero: o silêncio como estratégia de poder

Por Claudia Maldonado*

Em 2017, o Brasil decidiu ensinar pelo silêncio. Ao retirar a palavra "gênero" da Base Nacional Comum Curricular, não por revisão pedagógica, nem após debate técnico consistente, mas sob pressão política organizada, o país transformou a omissão em política educacional (Brasil, 2017). Desde então, o silêncio passou a integrar oficialmente o currículo. Este texto nasce dessa escolha.

Porque apagar uma palavra nunca é apenas apagar uma palavra. É definir o que pode ser nomeado, discutido e protegido. E, quando se apaga "gênero", apagam-se junto as desigualdades que atravessam a vida de meninas e mulheres — muitas vezes de forma invisível, mas sempre concreta.

O chamado movimento antigênero não é espontâneo nem desorganizado. Ele é estruturado, financiado e transnacional. Repete discursos semelhantes em países distintos porque responde a um objetivo claro: conter mudanças nas relações de poder, sobretudo aquelas que deslocam o lugar das mulheres na família, no trabalho e no espaço público. O discurso invoca valores; a prática preserva hierarquias (Kuhar & Paternotte, 2017; Corrêa, 2021).

A educação tornou-se o principal campo de batalha por uma razão simples: é ali que desigualdades começam — ou podem ser interrompidas. Não é na Constituição nem nos tribunais que uma menina aprende se pode liderar, ocupar espaço ou errar sem culpa. É na escola. Quem controla o que pode ser ensinado controla também o que pode ser imaginado.

Para que esse sistema funcione, conceitos distintos são deliberadamente aproximados e tratados como equivalentes. Sexo biológico, gênero e identidade de gênero, categorias distintas, com funções analíticas diferentes que passam a circular sob um único rótulo genérico. Não para esclarecer, mas para empobrecer o debate público. Esse empobrecimento não é efeito colateral: cria o ambiente ideal para interromper políticas voltadas à igualdade (UNRISD, 2023).

O mecanismo central dessa ofensiva é bloquear o debate racional por meio de narrativas alarmistas. Não se apresentam riscos concretos; constroem-se ameaças difusas. Termos técnicos cedem lugar a slogans. Políticas públicas passam a ser tratadas como perigos imprecisos. A palavra "gênero" é carregada de um sentido que nunca se define com clareza, porque sua função não é explicar, mas paralisar (Kuhar & Paternotte, 2017).

Os dados desmontam a narrativa da reação espontânea. Pesquisas internacionais indicam que bilhões de dólares circulam globalmente para financiar campanhas antigênero, valores muito superiores aos destinados à promoção da igualdade entre mulheres e homens. Levantamento do Global Philanthropy Project estima que, entre 2008 e 2017, organizações e fundações associadas a essas agendas movimentaram cerca de US$ 6,2 bilhões, com mais de US$ 1 bilhão direcionado a campanhas internacionais (Global Philanthropy Project, 2018; Equal Rights Coalition, 2022). Isso não é indignação difusa, é engenharia política organizada.

No Brasil, os efeitos são diretos e perceptíveis. O silêncio curricular se espalhou. Professoras passaram a se autocensurar. Escolas passaram a se defender preventivamente. Famílias passaram a desconfiar da educação sem saber exatamente do quê. O debate cedeu lugar à suspeita (Brasil, 2017).

É fundamental dizer com clareza: não são pessoas nem identidades o motor desse processo. O que ocorre é a instrumentalização deliberada de temas ligados à sexualidade e à identidade como gatilho emocional, capaz de produzir reações imediatas. Ao misturar políticas de gênero, voltadas a enfrentar desigualdades concretas entre mulheres e homens, com discursos normativos sobre costumes e papéis sociais, rejeita-se o conjunto inteiro. E, junto, desmontam-se políticas que protegem mulheres (Corrêa, 2021).

Nesse discurso, a família aparece como valor absoluto, mas sob um modelo específico e hierarquizado. A mulher é exaltada como cuidadora "natural", não para garantir sua liberdade de escolha, mas para restringi-la. O que está em curso é um projeto político que tenta recolocá-la em um lugar do qual ela lutou para sair, apagando a história do direito de trabalhar, estudar, circular e decidir. A desigualdade deixa de ser tratada como problema político e passa a ser apresentada como destino moral (Kuhar & Paternotte, 2017).

O resultado é silencioso e eficaz. As mulheres desaparecem do centro do debate público. Somem as discussões sobre desigualdade salarial, violência doméstica, sobrecarga de cuidado, evasão escolar de meninas, gravidez precoce. Não se afirma que mulheres não importam. Apenas deixa-se de falar delas. E o que não é nomeado não é protegido.

A comparação internacional torna esse silêncio ainda mais incômodo. Enquanto o Brasil optou por apagar a palavra "gênero" do currículo nacional, países como Inglaterra, Canadá, França e nações nórdicas seguiram o caminho oposto, incorporando conteúdos sobre igualdade, estereótipos e prevenção da violência como política pública de proteção, não como militância (Department for Education, 2019; UNESCO, 2018; OECD; EIGE). O contraste é simples: se gênero fosse realmente uma ameaça às crianças, ele não estaria presente nos currículos de democracias consolidadas.

O que esse contraste revela é o que o debate brasileiro insiste em ocultar: não se trata de proteger crianças. Trata-se de escolher o silêncio. E silêncio, em política pública, nunca é neutro. O silêncio não é ausência. É método. E, quando se cala a desigualdade, o que se ensina é a aceitá-la.

*Advogada, Presidente do Brasília Convention & Visitors Bureau e Vice-Presidente Institucional de Unedestinos