O combo 2025 é 2026
Na virada para 2026, o Brasil não está fechando um ano. Está emendando um ciclo. 2025 e 2026 viraram um combo, uma combinação de anos que se comporta como um contínuo. Por aqui, esse "ano alongado" só termina com o sufrágio e a apuração das urnas. É um calendário psicológico, não apenas eleitoral: a sensação de disputa permanente e de que, daqui em diante, vale tudo a qualquer preço. Como advertiu Carl von Clausewitz, a política é a continuação da guerra por outros meios. Neste sentido, a América Latina é um continente em disputa .
Ray Dalio, um dos maiores gestores de hedge funds do mundo, ajuda a enxergar o mecanismo por trás do ruído. Para ele, populismos de esquerda ou de direita não são ideologia: são reação. Explodem quando a pessoa comum conclui que o sistema foi capturado, porque a distância entre riqueza e oportunidades aumenta, conflitos de valores se intensificam e o Estado deixa de funcionar para a maioria. A política deixa de ser sobre produzir mais e vira uma guerra sobre quem fica com o que já existe. Nos EUA , porque a economia cresce e não redistribui . No Brasil porque o país não investe e não deixa de investir .
Em nosso país , o fim de 2025 ganhou um símbolo que transformou a virada do ano numa sequência de audiências e manchetes: a crise do Banco Master, até o último dia . O caso virou teste de supervisão bancária, segurança jurídica e, sobretudo, confiança institucional. Depois da liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central em 18 de novembro de 2025, o tema escalou ao debate público e ao Judiciário, alimentando a percepção de choque entre poderes e de imprevisibilidade regulatória. O efeito colateral é direto: se ninguém sabe qual regra valerá amanhã, investimento e poupança recuam hoje. O Brasil estaria na lona não fossem as exportações de commodities .
Esse desgaste do "árbitro" não é exclusividade brasileira. Nos Estados Unidos, na agenda externa invadiu o ano novo como se o calendário fosse como fórmula de reset contínuo . Netanyahu voltou ao centro da política americana em discussões sobre Irã, num ambiente em que cada decisão internacional reverbera como conflito interno. Ao mesmo tempo, manifestações no Irã apareceram como sintoma de um regime pressionado e de uma região em combustão lenta, com repressão e tensão social explícitas.
Os vários contextos externos ampliam o " continuum " de instabilidade . Na Europa enfraquecida , a guerra da Ucrânia continua sendo o relógio que não para. Zelensky fechou o ano falando em negociação, mas rejeitando um acordo "fraco" e apontando que o nó decisivo segue sendo território, especialmente o Donbass. E, por baixo do conflito militar, há um conflito econômico: uma indústria que patina, custos elevados, insegurança e sinais de fadiga na manufatura, com índices e relatórios indicando fraqueza persistente - 2025 não para !
No Indo-Pacífico, a geopolítica virou agenda doméstica de quase todos. A China realizou exercícios de grande escala ao redor de Taiwan, e os Estados Unidos responderam com um pacote recorde de US$ 11,1 bilhões em vendas de armas para a ilha, empurrando a região para mais militarização e mais ruído estratégico. O Japão, por sua vez, aprovou um orçamento recorde de defesa, sinalizando que a arquitetura de segurança do pós-guerra está sendo reescrita em tempo real.
E há a outra camada, menos dramática e mais decisiva: a geoeconomia. Enquanto o mundo se rearma, ele também se tarifa. A China anunciou sobretaxas sobre carne bovina acima de cotas a partir de 1º de janeiro de 2026, afetando exportadores como o Brasil e mostrando como o comércio pode virar instrumento de política interna. No Brasil, o protecionismo "verde" também entrou no pacote: a importação de veículos eletrificados seguirá um cronograma de alta, com alíquota prevista para chegar a 35% em julho de 2026. E, no pano de fundo, o acordo Mercosul-União Europeia segue como promessa que não virou assinatura definitiva, embora líderes insistam que pode destravar no começo de 2026.
É por isso que 2025 não terminou. Ele apenas mudou de nome e entrou em 2026 carregando seus conflitos engatilhados, suas disputas internas abertas e sua instabilidade global como cenário. A pergunta do "combo" 25-26 é se aprenderemos a quebrar o ciclo antes que ele nos quebre. O Brasil segue no seu autismo político , com o perdão da comparação .
Para nós , a saída não é moralismo nem gritaria digital. É previsibilidade: transparência, punição rápida a privilégios e corrupção, responsabilidade fiscal com foco em mobilidade social e um Estado que volte a entregar o básico. Por isso, 2025 só acaba quando a população e líderes , elites , formadores de opinião pensem e exijam dos que disputam o poder de 2026; que digam com clareza e por escrito o que planejam para o país. Meu desejo para o ano novo é simples: exigir planos.
*Vinícius Lummertz é Senior Fellow do Milken Institute, foi ministro do Turismo e secretário de Turismo e Viagens de São Paulo.
