O acordo UE-Mercosul e a volta do eixo atlântico
A retomada do acordo entre União Europeia não é mais uma pauta de tarifas e cotas , pode reativar um eixo atlântico que ficou politicamente desidratado e dar densidade econômica a algo que o Ocidente democrático anda devendo a si mesmo: vida nova com cooperação em larga escala, com previsibilidade, regras e ambição estratégica num mundo cada vez mais transacional. A Comissão Europeia mantém a intenção de concluir o processo até o fim de 2025, mas a política interna do bloco, com resistência de governos e pressão de setores agrícolas, continua sendo o maior freio. Isso acontece num momento em que a Europa, num mundo multipolar, vê sua importância relativa diminuir diante de EUA, China, Rússia e Índia.
Há um pano de fundo ainda maior: o eixo de gravidade do planeta migrou para o Pacífico. Economia, tecnologia, cadeias industriais e geopolítica passaram a olhar para lá. O Atlântico, que foi durante séculos o corredor principal da modernidade ocidental, perdeu espaço e, em certos círculos, até confiança. É justamente por isso que o acordo UE-Mercosul importa. Ele pode revitalizar o Atlântico como plataforma econômica e, por consequência, como espaço civilizacional.
A palavra civilização causa alergia em parte da Europa contemporânea. Mas, sem algum reconhecimento explícito da civilização ocidental como comunidade histórica de valores e instituições, Estado de direito, democracia representativa, pluralismo, direitos, liberdade econômica com regulação, a Europa corre o risco de virar apenas um museu do passado. O ponto aqui não é nostalgia, é estratégia. O Brasil e o Cone Sul não são periferia desse mundo. São sua expansão histórica e seu laboratório contemporâneo. Se a Europa quiser manter relevância global, precisa aceitar que o Ocidente também é americano, e que o Atlântico é ponte, não margem.
A resistência, porém, é concreta. Em 16 de dezembro de 2025, o Parlamento Europeu aprovou o endurecimento de mecanismos de salvaguarda para importações agrícolas ligadas ao acordo, buscando tornar mais rápido o acionamento de medidas quando houver risco de choque de mercado. O recado é simples: se avançar, virá com lupa regulatória, gatilhos mais ágeis e debate permanente sobre equivalência de padrões sanitários e ambientais. Há, nesse desenho, uma característica europeia que precisa ser levada em conta: a preferência por regulação detalhada tende a elevar custos de transação, e não raro transforma a política comercial num labirinto de exigências, mais eficaz para conter riscos do que para acelerar receitas.
Se destravar, a escala é grande o bastante para mudar expectativas. O pacto liga um mercado estimado em cerca de 780 milhões de consumidores. E os termos centrais, no papel, são claros: o Mercosul eliminaria tarifas sobre 91% das exportações europeias, incluindo a eliminação gradual do imposto de 35% sobre carros ao longo de 15 anos; e a União Europeia eliminaria tarifas sobre 92% dos produtos do Mercosul em prazos que chegam a uma década. Para a Europa, isso é oxigênio para manufaturas e marcas, de automóveis e autopeças a máquinas, químicos, fármacos e vinhos. Para o Mercosul, é diversificação de mercado e disciplina competitiva: o estímulo que obriga empresas a subir padrão e se internacionalizar.
O Brasil, porém, só vai aproveitar essa volta do Atlântico se tratar reputação como parte da infraestrutura. A UE é o segundo maior parceiro comercial do país, e a corrente de comércio somou € 89,5 bilhões em 2024. Ainda assim, exportamos muito como fornecedor e pouco como marca. O suco de laranja é uma parábola: em temporadas recentes, o Brasil respondeu por cerca de 90% das importações europeias do produto. Se o consumidor final pouco associa o suco ao Brasil, perdemos prêmio de preço e poder simbólico. A resposta não é indignação, é estratégia: rastreabilidade e conformidade impecáveis, certificações, presença comercial e um programa de comunicação e promoção que faça o Brasil aparecer no que já vende.
Do lado europeu, convém reconhecer que o debate não é livre mercado contra desordem tropical. A agricultura do continente é sustentada por uma arquitetura pública robusta: a Política Agrícola Comum reservou € 386,6 bilhões no orçamento de 2021 a 2027. Subsídio, ali, é instrumento de coesão e sobrevivência política. O Brasil precisa entender isso sem ingenuidade e responder com profissionalismo, porque padrão e proteção são parte do custo de acesso ao mercado europeu, e porque o protecionismo, quando se veste de virtude, costuma ser ainda mais difícil de enfrentar.
Mas pensar grande é ir além de mercadorias. Um eixo atlântico relevante no século 21 é também fluxo de pessoas e de ideias. A Constituição brasileira orienta a política externa por princípios como cooperação entre os povos, defesa da paz e repúdio ao terrorismo, e determina buscar a integração econômica, política, social e cultural da América Latina. Um acordo que queira ser, de fato, uma oportunidade civilizacional para democracias abertas deveria incluir educação, ciência e cultura: validação de diplomas, parcerias universitárias, pesquisa aplicada, intercâmbios e mobilidade qualificada em mão dupla. A Europa, em transição demográfica e econômica, tem motivos para desenhar canais mais inteligentes de atração de talentos; o Brasil, por sua vez, deveria abrir portas para profissionais europeus altamente qualificados e, ao mesmo tempo, preparar seus jovens para competir e cooperar nesse ambiente.
E há um ponto de identidade que pode ser força. O Brasil é uma forma nova de Ocidente: judaico cristã na matriz, mas renovada pela presença africana, indígena e por uma história de mistura cultural que não cabe nos esquemas rígidos do Velho Mundo. Para isso, a Europa terá de deixar o conservadorismo defensivo de lado, e o Brasil terá de abandonar a timidez estratégica. O Atlântico não vai se reerguer por saudade. Vai se reerguer por decisão.
No fim, vale uma menção, sem profecia. Samuel Huntington popularizou a ideia de que o mundo pós Guerra Fria seria marcado por um choque de civilizações. A melhor resposta do Ocidente democrático não é fechar-se em medo, nem diluir-se em culpa: é voltar a ter capacidade de integração, crescimento e confiança em si. Se o Pacífico virou motor do século, o Atlântico não precisa virar apêndice. Pode ser o carro chefe renovado, uma plataforma de prosperidade, ciência, cultura e mobilidade, ligando Europa e Américas com regras e ambição. O acordo UE-Mercosul, nesse sentido, é mais que comércio. É uma chance de reativar a energia do Atlântico e de atualizar a civilização ocidental pelas suas bordas mais vivas. Se europeus reconhecerem isso e brasileiros cobrarem isso, sem subserviência e sem timidez, o Atlântico volta a ser eixo de futuro. E a civilização ocidental não apenas resiste, ela se reinventa.
*Vinicius Lummertz é senior fellow do Milken Institute. Foi Ministro do Turismo, Presidente da Embratur, Secretário Estadual de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo
