E o meu troco?
Fui convidado por uma amiga, professora de artes em uma universidade na Cidade do Rio de Janeiro, para dar uma palestra sobre ética aos seus alunos. A turma estudava na parte da manhã e, no dia aprazado, logo cedo eu estava lá para uma aula sobre o tema. Os alunos não estavam muito interessados em ouvir o assunto e percebi que alguns cochilavam enquanto eu discorria sobre a matéria. Enfim, acabou o horário da manhã e a professora me convidou para almoçar com ela em um dos restaurantes que existem no campus da universidade. Topei! E lá fomos nós caminhando entre as árvores, ouvindo os pássaros e o correr das águas em um riacho que corta todo o terreno da universidade. Lembro-me de termos passado por um casal de araras que moravam em um conjunto de árvores, resquício de mata atlântica. A sena me chamou a atenção pela algazarra que faziam. Elas pareciam bem felizes ali e dava-nos a impressão de que queriam se comunicar conosco.
O almoço estava ótimo e a comida e o serviço do restaurante também, sem contar a agradável companhia de minha amiga professora. Apesar de cheio, o lugar era espaçoso e consegui me acomodar bem em uma das mesas. O restaurante é frequentado, principalmente, pelos professores e por empregados da universidade que trabalham no setor administrativo. Quando terminamos a refeição, apanhei a comanda referente a refeição da professora na intenção de pagar-lhe o almoço. Ao chegarmos no caixa, entreguei as duas comandas a uma das duas moças que tentavam dar conta do volume de clientes que se acumulavam em uma pequena fila. Ela apanhou as comandas de minha mão sem dar muita atenção ou mesmo olhar para mim. Fiz uma brincadeira qualquer para lhe chamar a atenção, mas ela ignorou e continuou concentrada em sua tarefa de cobrar os clientes. Quando ela terminou o somatório das comandas me olhou e disse o valor da conta com um olhar enigmático. Dei-lhe uma nota de grande valor, ela fez o troco, juntou com as filipetas de liberação da saída e entregou para minha amiga, a professora, que estava na fila logo atrás de mim.
Fiquei tão indignado que tomei a decisão de dar uma lição naquela moça e em todos os que acompanhavam à cena. Não me mexi um milímetro, fiquei estático, aguardando a reação da moça do caixa. Ela me mirou e esperou alguns segundos para em seguida perguntar se havia algum problema, ao que lhe respondi: "estou aguardando meu troco, pois lhe dei uma nota de cem reais para pagar duas comandas e você ainda não deu o meu troco".
A moça com olhar de indignação apontou para a professora que estava atrás de mim e falou: "dei o troco a ela!". Então eu retruquei: "você deu o troco dela, mas eu quero o meu".
Minha amiga confirmou me mostrando o dinheiro e as filipetas de saída em sua mão. Ao que eu respondi em um bom tom de voz, para que todos, que a essa altura prestavam atenção na ocorrência, pudessem ouvir e aprender: "professora, não aceito mais seu convite para palestrar aos seus alunos, pois venho aqui com a maior boa vontade e até pago o seu almoço e você ainda fica com o meu troco".
Todos riram, menos a moça do caixa que estava com uma daquelas caras que diz: "eu vou matar você!".
Peguei o meu troco e minha filipeta das mãos da professora e fui saindo, pensando se meu recado teria sido compreendido por todos ou se eu teria sido visto como um idiota a fazer uma grande confusão por conta de uma pessoa que só quis facilitar, não enchendo minhas mãos com o dinheiro do troco, visto que teria que tocar a cadeira de rodas.
*Diretor da Diretoria PcD da OAB/RJ
