Pesquisa investiga marcas da ação humana no litoral gaúcho
UFRGS analisa como seres humanos deixaram registros na paisagem local
Uma lagoa do litoral norte do Rio Grande do Sul guarda, em suas camadas de sedimento, uma história que atravessa milhares de anos.
Ali estão registrados processos naturais que moldaram a paisagem costeira, mudanças na vegetação e as diferentes formas de ocupação humana. Foi a partir desses registros que a geóloga Mariah Xavier Rocha desenvolveu uma pesquisa de doutorado voltada à compreensão de um dos conceitos mais debatidos da ciência contemporânea: o Antropoceno.
O termo é utilizado para descrever um período em que as atividades humanas passaram a influenciar profundamente os sistemas terrestres, alterando ciclos naturais, ecossistemas e até mesmo processos geológicos. Embora o conceito seja amplamente discutido em diferentes áreas do conhecimento, ainda não existe consenso sobre seu reconhecimento formal como uma nova época geológica.
Desenvolvida no Programa de Pós-graduação em Geociências da UFRGS, a pesquisa buscou compreender de que forma essas transformações podem ser identificadas no litoral norte gaúcho, uma região cuja formação geológica é relativamente recente e que passou por intensas mudanças ao longo do último século.
Descobertas
A origem do trabalho remonta ao período de mestrado da pesquisadora. Na época, ela estudava as alterações morfológicas de depósitos arenosos localizados entre as lagoas do Gentil e Manuel Nunes, na região de Cidreira e Tramandaí. Durante a investigação, observou que algumas das mudanças mais significativas haviam ocorrido nas últimas décadas e estavam diretamente relacionadas ao uso do território. "Descobrimos que as maiores alterações tinham relação direta com a influência da urbanização e da proliferação de vegetação exótica sobre os campos de dunas", explica Mariah.
A constatação levou a pesquisadora a aprofundar o interesse pelas relações entre ação humana e processos geológicos. A partir daí surgiu a ideia da tese, desenvolvida entre 2021 e 2025, em meio a um intenso debate internacional sobre a possível formalização do Antropoceno.
Para investigar como as intervenções humanas passaram a influenciar a evolução geológica da região estudada, a pesquisa utilizou fotografias aéreas históricas.